porta, perfeito e volta

rodas-oracao-tibet-1

Abro os olhos com algum esforço, como se cortinas-pálpebras de um palco abandonado ousassem insinuar um último espetáculo, e no lento acerto de foco começo a entender que à minha frente existe uma superfície avermelhada com desenhos estranhamento harmônicos e rosáceos.

Pisco. Pisco. Pisco.

E agora sinto o cheio de madeira, mas não das ordinárias peças de reflorestamento. É algo tão antigo quando à própria natureza, que já foi seiva, folha e resistência altiva às mais fortes tempestades. De posse deste novo sentido procuro explorar outros aromas que me ajudem a apagar a desorientação.

Continue reading

A ditadura dos formatos em um mundo de reforço positivo

artigo_formatos_mauroamaralcom

Hoje comecei o dia preparando alguns highlights para ajudar a guiar minhas provocações em um evento que rola no próximo sábado (20 de setembro). A plateia estará lotada com desenvolvedores de uma das plataformas de publicação de conteúdo mais disseminadas do mundo, o WordPress.

Farei parte de um painel dedicado ao conteúdo e não às traquitanas técnicas que tanto mesmerizam clientes e profissionais que em seus projetos dedicam horas a criar a melhor experiência para o usuário e equipar esta relação com os plugins da moda que deixam seu sites e blogs mais rápidos, compartilháveis e modernosos.

Para que, afinal de contas? Para servir a uma ditadura de formatos, de click-baitslisticles que a cada dia empobrecem mais a relação do leitor com boas histórias.“Você não acredita o que este grupo de pinguins fará com o golfinho desta foto” ou“20 maneiras de criar uma rotina de trabalho produtiva” são algumas das “manhas” técnicas que os produtores de conteúdo encontraram para driblar o guloso algorítimo das redes sociais em sua missão de mostrar só o melhor conteúdo.

Continue reading

Primeira temporada de The Leftovers – Acorde!

the-leftovers-episodio-final-review

HBO encerra novo drama do criador de Lost deixando uma dúvida: você é um dos 2%?

Respire fundo e esqueça a pressa inicial em saber “por que todos sumiram”. The Leftovers, que teve o final de sua primeira temporada transmitido ontem, nunca foi sobre isso. E nem tão pouco sobre a tentativa de Kevin Garvey em recuperar sua família. Quando 2% da população mundial simplesmente desapareceu, Damon Lindelof quis mesmo é cavar um buraco profundo nas raízes da esperança de sua audiência. E, não se engane, em seu quântico jeito de contar histórias, quando olhado de perto, esse espaço só faz aumentar.

Continue reading

Prezado Caos,

prezado-caos

Todos sabemos que és o senhor do mundo. A despeito das religiões transformarem você no Mal encarnado, e os laboratórios na fagulha primordial da primeira explosão, é o seu olhar sempre errático que encaminha as coisas por aqui. Como entidade única, antimatéria, matéria escura ou os números da MegaSena, sua (in)decisão está sempre na frente de tudo e todos.

Ainda assim, ciente da soberania, atrevo-me na humilde condição de integrante da raça humana, a solicitar uma atenção especial à sua atuação em 2014. Tá dando pinta.

Continue reading

Qual o valor de um segredo quando não existe mais privacidade?

qual-o-valor-de-um-segredo-quando-nao-existe-mais-privacidade

Um aplicativo de mensagens anônimas e a falência da privacidade são a mesma coisa?

A rede social Secret.ly parece ter viralizado este final de semana e eu me peguei ontem observando seu contínuo crescimento em cada vez mais camadas de minhas relações pessoais. Se você ainda não entrou por lá, uma explicação rápida: o conceito do aplicativo é poder publicar e comentar de forma (presumivelmente) 100% anônima.

Daí, já viu, né? Repressões sexuais e infelicidade no trabalho despontaram na hora como os temas mais comentados. Mas isso foi mudando continuamente e de forma cada vez mais rápida conforme ia se espalhando. E o que é mais interessante é que só é possível perceber isso a partir da estrutura das frases, da sua (não) correção gramatical e pequenos detalhes. Como tenho amigos de diversas regiões e origens, o feed do aplicativo mostrou-se rico nesse sentido.

Continue reading

Darren Aronofsky fala sobre o poder das histórias

darren-aronofsky-fala-sobre-o-poder-e-estrutura-das-historias-que-cria_v2

Em evento na Academia de Cinema, cineasta apresenta os fundamentos de seu processo criativo

Você já deve ter ficado olhando para a tela, coçando a cabeça, ressabiado com as histórias que Darren Aronofsky levou ao cinema. Em sua última incursão, o épico Noé, por exemplo, temos uma belíssima cena que consegue misturar criacionismo e evolucionismo em um único mito. Complicado? Pois é, ele curte.

Até por isso, o papo do vídeo abaixo é tão interessante. O cineasta e o psicólogo e neurocientista Jeffrey M. Zacks participaram de um painel promovido no último dia 30 de julho pela Academia de Cinema americana, com o sugestivo título de “Movies in Your Brain: The Science of Cinematic Perception”, ou em uma tradução livre, “Filmes em seu cérebro: a ciência da percepção cinemática”.

Nos sete minutos ele faz um resumo interessante sobre o lado “pancultural” dos mitos além de debater sobre o poder que estruturas narrativas têm nos cérebros e comportamentos de audiências ao redor do mundo.

Para saber mais

The Zero Theorem: você está aqui. E o aqui é o nada.

zerotheorem_091713_1600

Ficção científica no presente perfeito, o novo filme de Terry Gilliam é para quem não tem medo de resolver a grande questão de nosso tempo

Quem não curte uma boa distopia, não é mesmo? Aquela grande cidade com publicidade direcionada e personalizada, muito lixo, carros que voam ou os food trucks com comida reprocessada são só alguns dos elementos que qualquer fã de ficção científica espera ver no primeiro ato de qualquer filme do gênero.

E está tudo lá no The Zero Theorem, o mais recente filme de Terry Gilliam que já nos trouxe histórias tão perturbadoras quanto Brazil, 12 Macacos e o Mundo Imaginário de Dr. Parnassus.

Nas duas horas seguintes após o play, você andará de mãos dados com Qohen Leth e ele ao sempre talentoso Christoph Waltz. É uma viagem cíclica, focada no próprio umbigo de toda uma geração, sem início, meio ou fim.

Continue reading