Gente teórica

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Sexta-feira, shopping lotado. Paro para tomar um expresso e ao lado, senta uma dupla de amigos em seus trinta e poucos.

“Olha, aqui já está me mandando mensagem”. Mostra o celular para o amigo e prossegue, fazendo a voz da remetente: “Amor, acho que vou ligar para o meu médico porque meu corpo está estranhando essa nova medicação” No que o amigo pergunta: “Mas você já tentou mudar a medicação dela sem que ela saiba?” “Não dá, cara, os comprimidos são muito diferentes. Mas, me diz aí, e vocês? Já estão fazendo a tabelinha para saber o dia certo?“Não, não…”. Ele soa entre desanimado e desavisado.

“Eu tenho um aplicativo ótimo aqui, olha. Ele até manda uma notificação no dia fértil” Riem, brincam sobre gritar “É hoje!!!!”, quando receberem a notificação salvadora.

E param para pensar.

“É, mas tem que sincronizar com a sua agenda, né?” “É”.

E tomam seus cafés, compenetrados tais e quais adolescentes-tardios.

Eu e Luciana temos um nome para este tipo de casal: é o casal limpinho.

O casal limpinho entra e sai de uma festa sem nem amarrotar a roupa, leva seis meses para escolher um cachorro, e mais dois anos para montar um enxoval do filho que ainda terão. Se tiverem.

O casal limpinho casa, mas não quebra a cama, briga e não trepa para fazer as pazes. Aliás, não briga. O casal limpinho nunca tomou banho junto, ou levantou o edredon para soltar uma bufa (prova de amor, tá?).

Tenho pena dessa gente teórica.

Publicado originalmente em meu perfil no Medium.

Jornalistas e Mídias Digitais: comece aqui

e-Book que editora do B9 dá as primeiras orientações no mundo do conteúdo ultra-conectado

Andar de bicicleta. O ato tão cotidiano esconde, na verdade, um complexo equilíbrio entre insegurança e confiança. Isso porque qualquer pessoa com bom senso e o mínimo de coordenação motora, consegue entender como uma bicicleta funciona e como poderá interagir com ela.

Mas, todo o segredo dessas primeiras lições está em não deixar o aluno saber se você está ou não com a mão no banquinho, ajudando no equilíbrio. Um bom professor faz a pessoa acreditar em si mesma e, assim, deixá-la dar as primeiras pedaladas enquanto você jura que ainda a está sustentando.

Ao terminar o primeiro e-Book de Jacqueline Lafloufa (Midias Sociais para Jornalistas: Um guia para fazer e divulgar jornalismo nas Novas Mídias – Editora Atlas, 2015), que está diariamente nos posts do B9 atualizando você sobre tendências e demais novidades do mundo da criatividade e inovação, tive a exata noção que ela ensinou, de forma brilhante, aos jornalistas de sua geração a andar corretamente nessa bicicleta superveloz que são as mídias sociais. Eu sempre prefiro falar redes sociais, mas isso já é outro assunto.

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Precisamos falar sobre Birdman.

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Um ator, uma celebridade ou o sonho morto? Qual dos três é Riggan Thomson?

Precisamos falar sobre Birdman. Primeiro, por que você precisa vê-lo. Se estiver na casa dos 40, então, é mandatório. Se não acordou ainda para a realidade crua da vida, esta prima criativa da ficção, mais ainda.

E não porque a estética é interessante, não porque transformar o palco em bastidor e este em cena principal seja um achado, ou planos-sequência sejam deliciosos de se ver. Tá, até por isso, mas não só por isso.

O filme-sensação de Alejandro Iñárritu abre a ferida de suas várias perguntas. Existe por sobre o seu ombro, uma voz que guia você para a estagnação em um tempo não mais vigente? Que faz você acreditar que pode vencer a gravidade, mesmo que seja grave a sua situação cotidiana?

Qual o preço que seus sonhos cobram? Em que moeda você o paga? Aliás, você quita este débito com a sua posteridade ou fica no vermelho eternamente, reinventando uma dívida que, pessoas com foco no “sempre presente” sabem não existir?

O que fez você de suas relações pessoais? Elas são os atores de sua peça? O palco de sua vida? A coxia de sua subsistência? Qual foi o seu grande momento? Por que ele não continuou? Como ele assombra os seus dias desde então?

E, mais importante do que tudo: vale à pena trocar a delícia da pergunta pelo sem-sabor das respostas prontas? Os “Não se engasgue”, “não pare de respirar”, “decore os textos que a sociedade escreveu para você”, “pague a hipoteca”, “crie seus filhos”, “seja o melhor”, “sempre”, valem à pena?

Portas fechadas dirão que sim. Janelas abertas, que não.

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Sinopse: Um ator de filmes “blockbuster” aposentado, Riggan Thomson (Michael Keaton) resolve, pela primeira vez, subir no palco da Broadway para uma peça séria. É sua última chance de romper uma carreira estagnada. Ele resolve assumir o risco par amostrar ao mundo sua criatividade e talento como um ator real.

Sobre histórias e outras histórias (Painel de Conteúdo WEB no WordCamp RJ 2014)

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20 de setembro. Hora do almoço: “mas sobre o que vamos falar, gente?” Era a dúvida que pairava no ar, enquanto pedíamos nossos churrascos a um garçom que simplesmente não conseguia nos entender. Entre uma coca-cola e outra partilhávamos experiências mútuas sobre o que nos trouxera até ali. Como blogueiros no início dos anos 2000, como empreendedores na década seguinte, como lutadores em um país que voltou a ostentar…crise.

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Ontem, sentado assistindo Interestellar, pensando.

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Que filme extraordinário. Que cenas espaciais magníficas. Que robôs bacanas. Que dilemas tão humanos e transcendentes e, assustadoramente realistas.

Veja, a certa hora, o avô da menina Murphy, relembra: “eu vivia em uma época maravilhosa, onde a cada ano, novos gadgets eram lançados. E TODO MUNDO queria ter tudo. Mas, como 6 bilhões de pessoas poderiam querer tudo?”

Ninguém na plateia, sala lotada, esboçou um sorriso de entendimento. Ninguém percebeu que ele éramos nós os retratados como ultrapassados, enfastiados de novidades inócuas enquanto o que realmente interessa está indo para o ralo neste momento.

A seca aqui e acolá, a farra do consumo acabando NO MUNDO, a inovação estacionada em telas nas quais tocamos e tocamos e que não fazem nada tão diferente do que faziam há 5 anos. Um passo lento, ainda que inexorável, para a extinção.

O grande trunfo do filme, o que Nolan nos propõe, é uma reflexão profunda, como aquela energia de fundo, ouvida hoje pelos cientistas no confins do Universo e até por isso ignorada: o que fazer, quando não tivermos mais nada a fazer?

Em minha leitura apressada e baseada em meu conhecimento de almanaque (ou até por já conhecer o que se trataria por ali, cientificamente falando), toda a atenção esteve voltada para os dilemas dessa resposta que nunca chegou.

Aliás, chegou, chega e chegará, porque ela é a libertação final de nossa principal limitação. A marcha unidirecional do Tempo.

Recomendo. No IMAX, se possível.

Toda a elegância matemática dos filmes da PIXAR

Um dos meus passatempos favoritos é imaginar o que estariam fazendo grandes artistas e pensadores do passado remoto (ou nem tanto) nos dias de hoje. Seguindo um raciocínio simples, Beethoven, por exemplo, seria facilmente um guitarrista de banda de heavy metal, Freud teria uma banda Indie, depressivo que só, Madame Curie, um trailer no deserto de onde sintetizaria substâncias ilegais e…

…Leonardo DaVinci estaria na Pixar. Não como um ilustrador ou diretor de criativo mas, traduzindo na pureza da Matemática, a única linguagem universal, a ciência por trás dos movimentos e da ilusão divertida e acolhedora que são as histórias criadas por este estúdio.

No vídeo a seguir você pode conferir na prática como a Matemática é aplicada no dia a dia das renderizações, através da elegância das expressões que Tony DeRose, pesquisador do estúdio, desenvolve bem a nossa frente. O que eu mais gosto é como a coisa toda faz sentido tanto na interface de um software de alto nível, quando em um rascunho de papel de embrulho. Genial.

porta, perfeito e volta

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Abro os olhos com algum esforço, como se cortinas-pálpebras de um palco abandonado ousassem insinuar um último espetáculo, e no lento acerto de foco começo a entender que à minha frente existe uma superfície avermelhada com desenhos estranhamente harmônicos e rosáceos.

Pisco. Pisco. Pisco.

E agora sinto o cheio de madeira, mas não das ordinárias peças de reflorestamento. É algo tão antigo quando à própria natureza, que já foi seiva, folha e resistência altiva às mais fortes tempestades. De posse deste novo sentido procuro explorar outros aromas que me ajudem a apagar a desorientação.

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