Prezado Caos,

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Todos sabemos que és o senhor do mundo. A despeito das religiões transformarem você no Mal encarnado, e os laboratórios na fagulha primordial da primeira explosão, é o seu olhar sempre errático que encaminha as coisas por aqui. Como entidade única, antimatéria, matéria escura ou os números da MegaSena, sua (in)decisão está sempre na frente de tudo e todos.

Ainda assim, ciente da soberania, atrevo-me na humilde condição de integrante da raça humana, a solicitar uma atenção especial à sua atuação em 2014. Tá dando pinta.

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Qual o valor de um segredo quando não existe mais privacidade?

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Um aplicativo de mensagens anônimas e a falência da privacidade são a mesma coisa?

A rede social Secret.ly parece ter viralizado este final de semana e eu me peguei ontem observando seu contínuo crescimento em cada vez mais camadas de minhas relações pessoais. Se você ainda não entrou por lá, uma explicação rápida: o conceito do aplicativo é poder publicar e comentar de forma (presumivelmente) 100% anônima.

Daí, já viu, né? Repressões sexuais e infelicidade no trabalho despontaram na hora como os temas mais comentados. Mas isso foi mudando continuamente e de forma cada vez mais rápida conforme ia se espalhando. E o que é mais interessante é que só é possível perceber isso a partir da estrutura das frases, da sua (não) correção gramatical e pequenos detalhes. Como tenho amigos de diversas regiões e origens, o feed do aplicativo mostrou-se rico nesse sentido.

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Darren Aronofsky fala sobre o poder das histórias

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Em evento na Academia de Cinema, cineasta apresenta os fundamentos de seu processo criativo

Você já deve ter ficado olhando para a tela, coçando a cabeça, ressabiado com as histórias que Darren Aronofsky levou ao cinema. Em sua última incursão, o épico Noé, por exemplo, temos uma belíssima cena que consegue misturar criacionismo e evolucionismo em um único mito. Complicado? Pois é, ele curte.

Até por isso, o papo do vídeo abaixo é tão interessante. O cineasta e o psicólogo e neurocientista Jeffrey M. Zacks participaram de um painel promovido no último dia 30 de julho pela Academia de Cinema americana, com o sugestivo título de “Movies in Your Brain: The Science of Cinematic Perception”, ou em uma tradução livre, “Filmes em seu cérebro: a ciência da percepção cinemática”.

Nos sete minutos ele faz um resumo interessante sobre o lado “pancultural” dos mitos além de debater sobre o poder que estruturas narrativas têm nos cérebros e comportamentos de audiências ao redor do mundo.

Para saber mais

The Zero Theorem: você está aqui. E o aqui é o nada.

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Ficção científica no presente perfeito, o novo filme de Terry Gilliam é para quem não tem medo de resolver a grande questão de nosso tempo

Quem não curte uma boa distopia, não é mesmo? Aquela grande cidade com publicidade direcionada e personalizada, muito lixo, carros que voam ou os food trucks com comida reprocessada são só alguns dos elementos que qualquer fã de ficção científica espera ver no primeiro ato de qualquer filme do gênero.

E está tudo lá no The Zero Theorem, o mais recente filme de Terry Gilliam que já nos trouxe histórias tão perturbadoras quanto Brazil, 12 Macacos e o Mundo Imaginário de Dr. Parnassus.

Nas duas horas seguintes após o play, você andará de mãos dados com Qohen Leth e ele ao sempre talentoso Christoph Waltz. É uma viagem cíclica, focada no próprio umbigo de toda uma geração, sem início, meio ou fim.

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Eles têm voz

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Parado em frente ao espelho, após higiene matinal esta amanhã, como de um estalo veio o pensamento: será possível que tem gente que lê seus livros sem dar voz a cada um dos personagens?

Ok, depois de quatro décadas sobre o planeta você sabe que existe todo tipo de pessoa, mas como perdoar tal desvio? Relacionar-se com uma obra de forma totalmente amorfa, flat, ascética? Ah não…

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ReLeituras2014#2 – Neon Azul de Eric Novello

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Autor cria mundo paralelo em obra que busca capturar a solidão criativa

Devia a mim mesmo a chance de estrear para valer no mundo literário do Eric Novello. Se não, vejamos: temos uma grande amiga em comum e até programa já gravamos juntos. Dois motivos que por si só já bastariam, não fosse eu já ter comprado boa parte de suas obras à época da preparação para este pequeno trabalho sobre a chegada na Amazon no Brasil, e até mesmo já ter experimentado sua noveleta steampunk, “O Dia da Besta”. Excelente por sinal.

Até o dia em que aceitei a tarefa.

E fui levado por uma escada insalubre ao bar que nunca dorme e vive em ritmo diverso (ou seria complementar?) ao do centro carioca no qual, por obra de algum vórtice mágico, se assenta. Seus frequentadores, dos quais vou me abster de relatar nomes, descrições e tramas (seria um artifício barato para o que quero falar aqui), carregam todos uma sina: a dor do labor criativo quando vendido.

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