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Eles têm voz

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Parado em frente ao espelho, após higiene matinal esta amanhã, como de um estalo veio o pensamento: será possível que tem gente que lê seus livros sem dar voz a cada um dos personagens?

Ok, depois de quatro décadas sobre o planeta você sabe que existe todo tipo de pessoa, mas como perdoar tal desvio? Relacionar-se com uma obra de forma totalmente amorfa, flat, ascética? Ah não…

Tome por exemplo a missão destes últimos meses que tem sido para mim encarar a trilogia 1Q84, do Haruki Murakami. O texto tem um vigor característico e é totalmente baseado nas perspectivas de seus personagens que oscilam entre mundos paralelos, que olham por cima do ombro quando sentem o Povo Pequenino à espreita, que têm entre eles mesmos perseguidores e perseguidos. Mais do que isso: silêncios e ausências tão pesadas quanto à realidade povoam os espaços e o ritmo na narrativa.

Aomame, Tengo, a velha senhora, Tamaru, Fukaeri, o Lider, professor Ebisuno, o pai de Tengo. Todos eles impõe seus próprios ritmos, pesos e intensidades, como uma exigência para a história continuar. Como não ter uma voz para cada um, nesse caso?

Aomame, trêmula e indecisa. Tengo, entrecortado e ofegante. Tamaru, um Gary Oldman gay; Fukaeri, aquelas meninas japonesas que customizam o próprio rosto para parecerem bonecas, sempre olhando para o nada. O líder, como o drácula de Bram Stocker, decrépito porém vigoroso enquanto arquiteta seus planos…

Enfim, uma viagem sonora e, em alguns momentos, que se rivaliza em qualidade com a própria história. Dá para perder?

E você, seus personagens têm voz quando são lidos?