A estranha relação entre hidroginástica e nostalgia.
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Nado três vezes por semana e não tem um dia que não sou premiado com uma lição interessante das senhorinhas da hidroginástica.
Como parte de um programa pioneiro de recuperação de saúde física e mental, matriculei-me na academia. Desde o início de 2010, eu minha esposa – mas eu do que ela – , vamos às aulas onde nos é ensinado que sofrer é bom, emagrece e diminue o tamanho de sua calça em até dois números. Já estou quase no 44.
Como eu já passei por isso na adolescência (eu até gosto, não me entendam mal), o trabalho nas aulas tem muito a ver com controlar a memória muscular. Explico: meu cérebro realmente acredita que eu ainda tenho 16 anos e nado, sem cansar, 2 km. Parte do trabalho de meu dedicado professor é, pois, fazê-lo funcionar no espaço-tempo presente e, supostamente, real. É isso ou um enfarto.
Só que. Em frente à minha piscina existe outra, resguardada por uma edícula, onde ficam as senhorinhas da hidroginástica. Simpáticas e com tudo em cima (NOT!), reinam com seus gritinhos e piadas de duplo sentido de uma inocência enrubrecedora.
Um dos pontos altos da aula desta turminha “que é uma brasa, mora”, é quando ao som do axé, todas capricham nas coreografias. Não, não consigo vê-las por trás dos meus óculos embaçados e os 200m que sempre fico devendo próximo ao final da aula.
Mas ouço cada lembrança. Sim, as rainhas da terceira idade desfiam memórias invisíveis, que chegam até mim como um blues á beira do Mississipi. Hoje, a aula foi ao som de Forró e eu ouvi que “meu avô tocava acordeom e sanfona muito bem.”. E me emocionei com o silêncio respeitoso de todas.
Nostálgicas, mas muito práticas rapidamente passaram para outros movimentos, outra música e outras piadas. Mas me presentearam com uma presença-pensamento, uma conclusão, uma derivaçao bem interessante.
Aritméticos X Geométricos. Do alto de seus muitos anos, elas praticam uma memória em progressão geométrica onde cada pensamento, é um fator de multiplicação de outro e, por isso, dotado de imenso valor. Elas curtem cada experiência em comum, através da multiplicação de seus momentos individuais.
Quando orgulhosamente fiz minha virada olímpica e segui para mais 25m de pura agonia e superação, notei que nós, mais jovens, lidamos com a memória afetiva de forma aritmética. Cada pensamento é SOMADO a outros em igual medida e com alterações mínimas no geral de sua vida e da compreensão do Universo e tudo mais.
Se eu conto quanto me falta para chegar ao final da aula, a hidroginástica abriga quem conta quanto já ensinou a todos os professores do mundo.
