in Ler

Adeus geração. Olá geração.

Em 2010 testemunhei um movimento cultural bem interessante, mais evidente na produção áudio-visual. E não porque sucedeu alguma modificação importante no fazer desta indústria que não dá sinais de falir, não porque algum jovem talento despontou reinventando regras e paradigmas.

Estes primeiros nove meses do ano marcaram um movimento sem precedentes: o reprocessamento dos ícones de duas gerações inteiras, em quatro filmes emblemáticos.

É como se testemunhássemos de forma improvável e de um camarote instalado na beira de uma galáxia distante os últimos segundos de um sol antes de mergulhar para dentro de si mesmo, supernova.

Heróis, semideuses, arquétipos, batize da forma que quiser. Os modelos foram reprocessados e diluídos para um novo público, este tão impaciente, tão carente de tempo e de atenção, esta que a propaganda (ou sua variante digital e ultraconectada) disputa e mima com brindes tecnológicos a todo momento.

ToyStory 3, The Expendables, The Karate Kid e Inception contam uma história muito sutil de submissão a uma nova ordem. Estamos, aos poucos, e à custa de uma certa morosidade criativa por parte dos roteiristas (não entrem em greve novamente!) encerrando ou recontando os mitos modernos. Duvidam? Leiam a seguir.

Comecemos pelo caso de ToyStory 3 (Lee Unkrich), o mais singelo. Nesta última (?) aventura dos brinquedos falantes o dilema se encontra na ida de Andy para a faculdade. O garoto precisa se desfazer daquilo que o definiu como criança, levando para o saco de lixo ou para o sótão a fantasia de outros tempos.

Sentados na sala escura, pais e adolescentes testemunham o final de uma longa história de cumplicidade se aproximar, com direito à cenas finais realmente emo-cionantes.

Nota mental 1: o primeiro grande block-buster em 3D, aquele que funda a indústria e salva os filmes de animação, coloca a fantasia no saco. Como se viver de fantasia em um mundo dominado por tweens que têm na palma da mão mais informação (não conhecimento necessariamente) do que toda sua árvore genealógica?

Trocando Debussy por Sepultura, chegamos ao The Expendables (Sylvester Stallone), renomeado aqui no Brasil como “Os Mercenários”. É o tal filme da frase infeliz de Sylvester Stallone na Comicon 2010: “Um país onde você explode tudo e eles ainda te dão um macaco de presente”.

O que vemos aqui? Adrenalina e testosterona servidas em flame shots com direito a Gisele Itié (ai, ai…) pagando de latina. Hordas de trogloditas, trolls e orcs fizeram filas para conferir a briga eterna de guerreiros em micro-vinganças e lutas há muito perdidas.

Em uma ode ao brucutu hipertrofiado, testemunhamos outro enterro de ícones. Stallone deformado, Arnold não podendo se soltar muito pois, pasmem, ainda dirige um estado americano, Lundgreen alucinógeno-alucinado, desde Rocky.

Nota mental 2: Acenam para a a platéia os grandalhões, como que dizendo: “É, amigos, somos dispensáveis. Nós e vocês, que nos curtem.” Agora todos preferem admirar beleza andrógena antes de enfrentar o próprio medo.

A lista segue com o remake (ou reboot?) do clássico The Karate Kid (Harald Zwart). O filme-mestre da Sessão da Tarde, aquele que falava da superação de um mancebo de inclinações sensíveis, onde acompanhávamos sua jornada até o pódium de campeão, ganhou um novo sopro.

Lembram dos tweens que mencionei acima? Aqueles que são alvo do rolo compressor midiático, que os engambela vendendo a ilusão de uma participação ativa e produtiva através das redes sociais digitais? Aqui eles alcançam o estrelado, quando um pai reprocessa a si próprio na figura de seu filho, oferecido em sacrifício (sem morte) e holocausto a nova ordem icônica do cinema.

Sim, no filme (que é bom, é divertido, é pipoca-família) Will Smith está atrás de cada cena, repensando a figura do bad-boy que encarnou em tantos outros filmes. Nesta grande arena de re-pensamento global, ele se manifesta nos trejeitos invocados de sua versão mini-me. Frase chave para entender o drama que se desenrola? “Eu não quero sentir mais medo”. Trauzindo: eu quero me aposentar.

Nota mental 3: os contadores de histórias fizeram-se reféns de seus própris pupilos e hoje, o público-autor não dá a mínima para os mitos. Vivem eles no instante tempo-real, uma diemensão de sonho movido à mini subornos saborosos.

Ah sim, o sonho. É ele o tema de Inception (Christopher Nolan). “A Origem” nos leva para o mundo de Dom Cobb, um arquiteto de sonhos que se especializou em criar mundos oníricos que suas vítimas preenchem com suas próprias personas.

O sonho é o seu “negócio”. Dom é contratado por inimigos das vítimas para, uma vez enredadas neste “sonhar cúmplice”, extrair deleas os segredos devidos. Ou comprados. Ou vendidos.

Se em Matrix é a tecnologia que nos tira do real, em Inception é o real que simplesmente deixa de ter importância. Não há domínio, há limbo. Em nossa última (ou penúltima) camada de sonho não há relação de poder (fundamental para o entendimento da Matrix).

E o que fizemos nós aqui? Saímos da despedida singela, para tomar um chute neandertalesco, fazermos birra como um pré-adolescente qualquer para, uma vez sacudidos (mas tinha que ser ao som de Edit Piaf?) acordar para descobrir que estávamos dormindo para acordar e descobrir que estávamos dormindo.

Há uma subimissão ao mistério final: estaríamos nós fazendo dormir os mitos?

Nota mental 4: Já cheguei no limbo?

 
<< Carl Sagan Vocoder
Criacionismo em 8 bits >>
  • vagner santos

    Com exceção de “The Karate Kid” os demais são interessantes e destaque para Inception (O filme do ano), e ToyStory 3 (Paixão da infância), já o brucutus, levei o filme para o lado da comédia mesmo. Ótimo post Mauro.