Brinquedos novos e antigos

Por em Fotografar, Ler, Ouvir

Curioso lembrar isso mas, em 1985, fazia exatamente o que faço hoje: contava histórias no formato texto e áudio. Antes que você levante uma bandeira anti-saudosista devo lembrar que o mundo não era uma vírgula diferente do que é hoje. Se amava ou se odiava na mesma medida. Tá, era uma realidade mais analógica: cinco canais de TV, músicas vindas direto por bolachões de vinil e muito tempo livre.

Diários-blogs

O lado texto, a versão txt da minha mania por contar histórias ficava por conta de um blog de papel, onde falava sobre quadrinhos e cometia um ou outro poeminha e texto livre (vai lá, adolescente, tímido essas coisas). Uma linha editorial bem bolada, viu?

Todos os dias eu tinha a obrigação de produzir algo, uma vez por mês fazia o orçamento mensal que se resumia a registrar os gibis que comprava e ainda fazia o clipping de notícias da moda, ou pelo menos, da minha moda. As categorias já estavam lá. A hora em que o texto fora “postado”, igualmente. Era, portanto, um blog de papel.

Tá, confesso, tinha todo um capítulo obscuro sobre colecionar notícias do caderno policial e tentar resolver os crimes sozinho… mas… depois que comecei a ler Sherlock Holmes a coisa amansou. Confira logo abaixo:

Tardes de sábado

E tinha também a versão áudio dessa história. Se aos seis anos, poucos meses após aprender a ler, já estava assistindo a aulas regulares de música, imagina o que eu queria fazer com 13? Bem, só tinha à mão antigos gravadores de fitas k7 – daqueles que vão ficando encostados no quarto de empregada (que lá em casa era um laboratório do professor pardal onde, mais tarde eu e meus irmãos dominaríamos a arte e técnica de programar em Basic o MSX) e algumas flautas barrocas. Resultado? Música medieval a seis vozes.

Era uma trabalheira só: grava o baixo, coloca para tocar num gravador, com o microfone apontado para ele enquanto grava a tenor. Pega o mix dos dois, põe para tocar enquanto faz a soprano 2…e assim por diante. Uma tarde de sábado depois uma faixa estava pronta. O resultado era tosco, obviamente. Mas o sabor da descoberta se encarregava de temperar essas pequenas mashups.

Quem dera ficassem assim:

Depois veio a internet, os programas de edição não linear e o alcance mundial. Diferente de um velho caderno e um punhado de fitas BASF? Só para quem não entendeu de que são feitas as boas histórias.