Ontem, sentado assistindo Interestellar, pensando.

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Que filme extraordinário. Que cenas espaciais magníficas. Que robôs bacanas. Que dilemas tão humanos e transcendentes e, assustadoramente realistas.

Veja, a certa hora, o avô da menina Murphy, relembra: “eu vivia em uma época maravilhosa, onde a cada ano, novos gadgets eram lançados. E TODO MUNDO queria ter tudo. Mas, como 6 bilhões de pessoas poderiam querer tudo?”

Ninguém na plateia, sala lotada, esboçou um sorriso de entendimento. Ninguém percebeu que ele éramos nós os retratados como ultrapassados, enfastiados de novidades inócuas enquanto o que realmente interessa está indo para o ralo neste momento.

A seca aqui e acolá, a farra do consumo acabando NO MUNDO, a inovação estacionada em telas nas quais tocamos e tocamos e que não fazem nada tão diferente do que faziam há 5 anos. Um passo lento, ainda que inexorável, para a extinção.

O grande trunfo do filme, o que Nolan nos propõe, é uma reflexão profunda, como aquela energia de fundo, ouvida hoje pelos cientistas no confins do Universo e até por isso ignorada: o que fazer, quando não tivermos mais nada a fazer?

Em minha leitura apressada e baseada em meu conhecimento de almanaque (ou até por já conhecer o que se trataria por ali, cientificamente falando), toda a atenção esteve voltada para os dilemas dessa resposta que nunca chegou.

Aliás, chegou, chega e chegará, porque ela é a libertação final de nossa principal limitação. A marcha unidirecional do Tempo.

Recomendo. No IMAX, se possível.

 

porta, perfeito e volta

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Abro os olhos com algum esforço, como se cortinas-pálpebras de um palco abandonado ousassem insinuar um último espetáculo, e no lento acerto de foco começo a entender que à minha frente existe uma superfície avermelhada com desenhos estranhamente harmônicos e rosáceos.

Pisco. Pisco. Pisco.

E agora sinto o cheio de madeira, mas não das ordinárias peças de reflorestamento. É algo tão antigo quando à própria natureza, que já foi seiva, folha e resistência altiva às mais fortes tempestades. De posse deste novo sentido procuro explorar outros aromas que me ajudem a apagar a desorientação.

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A ditadura dos formatos em um mundo de reforço positivo

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Hoje comecei o dia preparando alguns highlights para ajudar a guiar minhas provocações em um evento que rola no próximo sábado (20 de setembro). A plateia estará lotada com desenvolvedores de uma das plataformas de publicação de conteúdo mais disseminadas do mundo, o WordPress.

Farei parte de um painel dedicado ao conteúdo e não às traquitanas técnicas que tanto mesmerizam clientes e profissionais que em seus projetos dedicam horas a criar a melhor experiência para o usuário e equipar esta relação com os plugins da moda que deixam seu sites e blogs mais rápidos, compartilháveis e modernosos.

Para que, afinal de contas? Para servir a uma ditadura de formatos, de click-baitslisticles que a cada dia empobrecem mais a relação do leitor com boas histórias.“Você não acredita o que este grupo de pinguins fará com o golfinho desta foto” ou“20 maneiras de criar uma rotina de trabalho produtiva” são algumas das “manhas” técnicas que os produtores de conteúdo encontraram para driblar o guloso algorítimo das redes sociais em sua missão de mostrar só o melhor conteúdo.

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Primeira temporada de The Leftovers – Acorde!

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HBO encerra novo drama do criador de Lost deixando uma dúvida: você é um dos 2%?

Respire fundo e esqueça a pressa inicial em saber “por que todos sumiram”. The Leftovers, que teve o final de sua primeira temporada transmitido ontem, nunca foi sobre isso. E nem tão pouco sobre a tentativa de Kevin Garvey em recuperar sua família. Quando 2% da população mundial simplesmente desapareceu, Damon Lindelof quis mesmo é cavar um buraco profundo nas raízes da esperança de sua audiência. E, não se engane, em seu quântico jeito de contar histórias, quando olhado de perto, esse espaço só faz aumentar.

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Prezado Caos,

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Todos sabemos que és o senhor do mundo. A despeito das religiões transformarem você no Mal encarnado, e os laboratórios na fagulha primordial da primeira explosão, é o seu olhar sempre errático que encaminha as coisas por aqui. Como entidade única, antimatéria, matéria escura ou os números da MegaSena, sua (in)decisão está sempre na frente de tudo e todos.

Ainda assim, ciente da soberania, atrevo-me na humilde condição de integrante da raça humana, a solicitar uma atenção especial à sua atuação em 2014. Tá dando pinta.

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Qual o valor de um segredo quando não existe mais privacidade?

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Um aplicativo de mensagens anônimas e a falência da privacidade são a mesma coisa?

A rede social Secret.ly parece ter viralizado este final de semana e eu me peguei ontem observando seu contínuo crescimento em cada vez mais camadas de minhas relações pessoais. Se você ainda não entrou por lá, uma explicação rápida: o conceito do aplicativo é poder publicar e comentar de forma (presumivelmente) 100% anônima.

Daí, já viu, né? Repressões sexuais e infelicidade no trabalho despontaram na hora como os temas mais comentados. Mas isso foi mudando continuamente e de forma cada vez mais rápida conforme ia se espalhando. E o que é mais interessante é que só é possível perceber isso a partir da estrutura das frases, da sua (não) correção gramatical e pequenos detalhes. Como tenho amigos de diversas regiões e origens, o feed do aplicativo mostrou-se rico nesse sentido.

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The Zero Theorem: você está aqui. E o aqui é o nada.

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Ficção científica no presente perfeito, o novo filme de Terry Gilliam é para quem não tem medo de resolver a grande questão de nosso tempo

Quem não curte uma boa distopia, não é mesmo? Aquela grande cidade com publicidade direcionada e personalizada, muito lixo, carros que voam ou os food trucks com comida reprocessada são só alguns dos elementos que qualquer fã de ficção científica espera ver no primeiro ato de qualquer filme do gênero.

E está tudo lá no The Zero Theorem, o mais recente filme de Terry Gilliam que já nos trouxe histórias tão perturbadoras quanto Brazil, 12 Macacos e o Mundo Imaginário de Dr. Parnassus.

Nas duas horas seguintes após o play, você andará de mãos dados com Qohen Leth e ele ao sempre talentoso Christoph Waltz. É uma viagem cíclica, focada no próprio umbigo de toda uma geração, sem início, meio ou fim.

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Eles têm voz

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Parado em frente ao espelho, após higiene matinal esta amanhã, como de um estalo veio o pensamento: será possível que tem gente que lê seus livros sem dar voz a cada um dos personagens?

Ok, depois de quatro décadas sobre o planeta você sabe que existe todo tipo de pessoa, mas como perdoar tal desvio? Relacionar-se com uma obra de forma totalmente amorfa, flat, ascética? Ah não…

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Tudo pela audiência. Até mesmo a displicência.

Porchat e Tatá funcionam bem juntos e programa funciona. Mas, seu foco precisa ser melhor explicado

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Ontem rolou a estreia do “Tudo pela audiência”, um programa de humor no Canal Multishow com a Tatá Werneck e o Fábio Porchat. Vi até o final, gostei mas fechei a noite com a sensação de uma fronteira imaginária entre a citação de formato e a adoção do formato.

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