The Zero Theorem: você está aqui. E o aqui é o nada.

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Ficção científica no presente perfeito, o novo filme de Terry Gilliam é para quem não tem medo de resolver a grande questão de nosso tempo

Quem não curte uma boa distopia, não é mesmo? Aquela grande cidade com publicidade direcionada e personalizada, muito lixo, carros que voam ou os food trucks com comida reprocessada são só alguns dos elementos que qualquer fã de ficção científica espera ver no primeiro ato de qualquer filme do gênero.

E está tudo lá no The Zero Theorem, o mais recente filme de Terry Gilliam que já nos trouxe histórias tão perturbadoras quanto Brazil, 12 Macacos e o Mundo Imaginário de Dr. Parnassus.

Nas duas horas seguintes após o play, você andará de mãos dados com Qohen Leth e ele ao sempre talentoso Christoph Waltz. É uma viagem cíclica, focada no próprio umbigo de toda uma geração, sem início, meio ou fim.

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Eles têm voz

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Parado em frente ao espelho, após higiene matinal esta amanhã, como de um estalo veio o pensamento: será possível que tem gente que lê seus livros sem dar voz a cada um dos personagens?

Ok, depois de quatro décadas sobre o planeta você sabe que existe todo tipo de pessoa, mas como perdoar tal desvio? Relacionar-se com uma obra de forma totalmente amorfa, flat, ascética? Ah não…

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Tudo pela audiência. Até mesmo a displicência.

Porchat e Tatá funcionam bem juntos e programa funciona. Mas, seu foco precisa ser melhor explicado

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Ontem rolou a estreia do “Tudo pela audiência”, um programa de humor no Canal Multishow com a Tatá Werneck e o Fábio Porchat. Vi até o final, gostei mas fechei a noite com a sensação de uma fronteira imaginária entre a citação de formato e a adoção do formato.

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ReLeituras2014#2 – Neon Azul de Eric Novello

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Autor cria mundo paralelo em obra que busca capturar a solidão criativa

Devia a mim mesmo a chance de estrear para valer no mundo literário do Eric Novello. Se não, vejamos: temos uma grande amiga em comum e até programa já gravamos juntos. Dois motivos que por si só já bastariam, não fosse eu já ter comprado boa parte de suas obras à época da preparação para este pequeno trabalho sobre a chegada na Amazon no Brasil, e até mesmo já ter experimentado sua noveleta steampunk, “O Dia da Besta”. Excelente por sinal.

Até o dia em que aceitei a tarefa.

E fui levado por uma escada insalubre ao bar que nunca dorme e vive em ritmo diverso (ou seria complementar?) ao do centro carioca no qual, por obra de algum vórtice mágico, se assenta. Seus frequentadores, dos quais vou me abster de relatar nomes, descrições e tramas (seria um artifício barato para o que quero falar aqui), carregam todos uma sina: a dor do labor criativo quando vendido.

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7 números primos para você arrasar na divisão!

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Li outro dia que das 15 maneiras de se aumentar seu retorno em leads de mobile marketing, 8 eram as mais matadoras técnicas produtividade para profissionais em início de carreira. Não que isso seja relevante ou gere engajamento, uma vez que comprovou-se que o algorítimo atual nas redes sociais mostra apenas 15% do que você não queria dizer para 5% de gente que não quer ouvir nada do que sua marca tem poara mostrar.

Mas calma, olhe com atenção. Pelo menos se você ainda tiver alguma. Você sabia que pesquisas indicam que cada vez menos pesquisas indicam alguma coisa?  E que os serviços em nuvem são, na verdade… bem, o importante é que ELES sabem o que são os serviços em Nuvem. Aliás, ELES sabem tudo, mas só a duração do tudo e de onde o tudo sai e para onde ele vai.

Mas, pensando bem (com o lado direito do seu cérebro, aponta um estudo) para que privacidade? Com os seus dados de localização, preferências sexuais, animais e chantili pode-se conseguir qualquer coisa. Mas calma lá! Ordem! Ordem no tribunal de contas. No tribunal de lontras. No tribunal divino.

Aqui se faz e não se paga, amarra-se em suaves prestações com trava de bicicleta no post da esquina, o ex-escravo quase liberto. Ostentação de justiça alheia, sobre a qual não tenho opinião no momento, apenas a garganta entalada.

Mas, claro, você pode dizer, isso é coisa de país bom de BRIC, por aqui o esquema é outro, é mais na malícia e no gingado. Subvertemos a ordem natural das coisas, com as Olimpíadas e a Copa que, aliás, não vai haver. 

Por essa semana, é isso.

 

ReLeitura2014#1: The Circle

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Curti muito fazer o último FalaFreela de 2013 no formato “releitura”, ou seja, em um saudável confronto das listas de leituras minhas, de Cristiano Santos e Carolina Vigna, co-editores no projeto Carreirasolo.org. Tanto que resolvi estender a mania ao longo do ano, criando uma pequena análise, ou simples relatório, a cada obra concluída.

E, como acabei de encerrar o retiro anual na praia no qual, depois de uns dois dias de descompressão, você parece atingir um tal nível de relaxamento que tudo soa mais simples, claro e positivo, já me adiantei em ligar o notebook antes de desfazer as malas e arrumar, nestas mal acomodadas frases, minhas impressões sobre o primeiro livro do ano.

Ah, antes um adendo: embora tenha defendido no mesmo podcast citado acima a soberania do eBook e seus leitores de tinta eletrônica, abro espaço para me contradizer sem qualquer vergonha: férias na praia demandam livros de papel.

Não sei porque, mas acredito que seja alguma lembrança de infância, em ter encontrado livros em casas que visitávamos, esperando anos e anos para serem lidos. era como se existisse uma biblioteca secreta, compartilhada entre veranistas, sabe? Isso, ou então a portabilidade ou a necessidade de se ver livre dos vícios urbanos nestas semanas de vento fresco e tempo lento. Fim do adendo.

The Circle, Dave Eggers

Após a leitura de “The Circle”, posso apenas afirmar que sigo em busca da obra literária que ainda definirá a nossa época, o futuro do presente da segunda década do século XXI.

Isso porque as desventuras de Mae Holland no espaço de tempo de poucos meses entre sua saída de uma chata e burocrática empresa estatal americana e a chegada, ascensão e clímax nos domínios da maior empresa digital do mundo, não me convenceram.

O antes (resenha em grandes sites do momento) e o durante (o desenrolar da trama em si) até agradaram, mas o resultado final, meio amargo e inconclusivo, me deixou com a nítida sensação de estar lendo, no final das contas, mais uma etapa da tão temida “completation”, que na narrativa simbolizaria o domínio completo do mundo pelo monopólio dos “Three Wise Men”. Seria o livro apenas um prenúncio de sua própria profecia?

Mas, não se deixe levar, pretenso leitor, por este início meio detrator. O livro de Eggers tem lá seus acertos e encantos.

Sua primeira parte (Livro I) é marcada pela morte da autenticidade e rebeldia de Mae, que mesmo sendo contratada por sua amiga de faculdade para integrar a maior empresa do mundo, mantinha uma rotina off-line interessante, com passeios na natureza e um tom “blasé” frente ao frenético mundo dos “circlers”, que exigem retribuição social e digital para cada pedido de amizade ou convite para evento.

Mae, no começo do livro, é como o ser humano comum (naquilo que se consideraria comum em um mundo que se PERMITE optar não integrar as redes sociais, por exemplo). Só que isso incomoda muita gente, certo?

Como um Dante dos tempos modernos, contudo, Mae desce pouco a pouco aos círculos de um inferno particular, marcado curiosamente pela inclusão de mais e mais monitores em sua mesa. Primeiro dois, depois três. E, à medida que vai adquirindo novas funções, quatro, cinco, seis…nove!

Nove. Isso me chamou atenção. Teria Eggers feito uma transposição superficial, ainda que curiosa, de uma das obras mais famosas e monumentais do mundo? De repente, não. Apenas exagero de minha parte, certo?

E por falar em exagero, é no Livro II que o caldo entorna pois, no afã de manter este mesmo clima de rebeldia, Mae é pega pelas câmeras oniscientes da empresa cometendo um ato ilícito, ainda que inocente. Sua punição vem de forma curiosa e a pune com sucesso.

Na verdade, o grande ponto do livro é esse: a maior punição de Mae foi, justamente, ter feito um sucesso absurdo e elevado a um expoente estratosférico o mesmo comportamento que ela, no início do livro, criticava. Não disse que “The Circle” guarda boas surpresas?

Essa é uma delas e gostaria de chamar atenção e reforçar o ponto. Quando comecei a escrever este artigo, pensei em centralizá-lo naquilo que mais me incomodou: a falta de uma trama clássica. Daquelas com “cliff-hangers” e “turning points” que deixam você de queixo caído. Mas, ao me deparar com este conceito, notei que ele é ainda mais importante.

O sucesso é a grande punição dos rebeldes em um mundo de exposição extrema!

Esta morte figurada de Mae é um ponto interessante e com ele gostaria de encerrar esta rápida análise do livro. Neste início de 2014, que promete ser o ano no qual as liberdades e privacidades de modo geral e irrestrito estarão no topo de diversas discussões ao redor do mundo, “The Circle” acerta em flertar com os temas da moda, mostrando como a Distopia final pode ser, afinal, o futuro que estamos construindo.

Drones (que aparecem no livro em uma das cenas mais estranhas de toda a obra), NSA, roubo de identidade, regimes de governo, crime e punição nos são apresentados, enfim, como produtos gratuitos de uma imensa e voraz empresa que busca se completar, para, em vão, tentar completar a humanidade que diz representar.

Os personagens são rasos, a trama, com disse, não se sustenta e a voracidade por construir frases seminais (“Secrets are lies”; “Sharing is caring”; “Privacy is theft”.) transformou o livro em uma espécie de relátório de visitas à Startups Californianas (Small Empires?) quando ele poderia trazer a luz para questões mais aprofundadas.

Sim, indico a leitura. Com um pouco de esforço “The Circle” pode se acomodar na mesma prateleira que você guardar “1984” e “Admirável Mundo Novo”. Desde que você entenda que, com boa vontade, os irmãos pequenos podem compartilhar o mesmo quarto do que os maiores.

Não deixe este post morrer. Eu neste momento devo estar lendo outro livro mas, se você quiser deixar sua sugestão de leitura nos comentários, eu prometo avaliar e, quem sabe, ler também!

 

Com vocês, a próxima coisa.

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Sofro da “próxima coisa” há aproximadamente 41 anos. Em um exercício de memória bem fantasioso dá até para arriscar a cena: em uma corrida alucinada deixo vários competidores para trás e, de repente, sou invadido por uma estranha sensação, misto de triunfo e final de sorriso de uma boa piada: “…ai, ai…arf…arf…Ok, rompemos a barreira do óvulo, e agora, o que vem?”

Não confunda com talento empreendedor, força de vontade ou perseverança. Comecei este artigo com um verbo tão carregado de significados não foi à toa. Viver nos dissabores da “próxima coisa” não é uma tarefa fácil e tão pouco tem benefícios no médio e longo prazo. É uma escravidão de ventre livre.

No campo profissional, este que parece ser um resumo forçado daquilo que gosto de fazer para viver, a “próxima coisa” se manifesta em um eterno pesquisar, em um olhar atento e no prazer da descoberta. Sábio são os árabes que nos contam com o peso dos anos vividos no deserto que “se o prazer perdura, termina o prazer”.

Isso porque ao descobrir uma nova tendência, um novo jeito de trabalhar, um novo filme, site ou banda que seja; e ao experimentar os primeiros movimentos de sua manifestação (seja artística ou processual), ela bate na porta, a “próxima coisa”, cobrando, delicadamente no início e com pancadas mastodônticas logo em seguida: “E aí, o que vem depois?”

Por conta dela às vezes, não resolvo, postergo, Não leio, scaneio. Não amo, apenas aceito. A “próxima coisa” é, em si, uma supernova achando-se buraco-negro. Menos real do que é e, assim, mais poderosa do que imagina. E me leva.

Com os primeiros segundos desta maturidade antecipada, fiquei outro dia imaginando que este sentimento deve até mesmo respingar nos que me rodeiam. “Mas você não disse que isso aqui era bom?”. “Que nada, agora o lance é esse outro aqui”. Pois é, quem convive comigo já ouviu isso várias e várias vezes e, só hoje, entendo a desolada expressão do rosto, o desentendimento de minha inconstância, objetividade extrema e fome de novidade.

Sei, claro, que a “próxima coisa” tem data certa para acabar. Infelizmente ela coincide com eventos nada prazeirosos de minha existência :), a saber o seu final, ali pelos 120 anos. Até, lá, inaugurando a categoria de “cura autoimune”, ela segue me levando para frente, mas não para cima. Para fora e não para dentro.

E você, qual será o próximo comentário que vai fazer?

 

Uma loja que vende o seu tempo atual

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A primeira questão logo de saída, como alguém que pula pela primeira vez de um trampolim e ao tirar os pés da prancha lembra que não sabe nadar. Ando cultivando um desapego a esta fama – quase irreal – , que seres da minha geração têm em se manter sempre à frente nas indicações de consumo de produtos culturais, como livros, filmes e séries de TV.

Acho que, vez em quando, nós que somos fundadores da blogosfera, profissionais de conteúdo digital etc; devemos mesmo é relaxar e ver o que nossos contatos mais próximos indicam. Sem preconceitos, sem o clima de “ele sabe mais do que eu”. Acontece com vocês também? Pois é.

E aconteceu comigo, dia desses ao dar a primeira olhada diária no Facebook e me deparar com um post rápido de um antigo contato indicando o livro “A livraria 24 horas do Dr.Penumbra”, de Robin Sloan.

Você conhece o Robin Sloan, ou pelo menos seu trabalho, mesmo sem saber. Ele trabalhou no começo do Twitter e antes na Current TV. Ou seja, Sloan sempre esteve nos bastidores da movimentada cena digital em São Francisco. Qual seria o peso desta posição na criação de um livro de fantasia contemporâneo? Talvez aquele apenas que recai sobre os produtores culturais de todas as épocas: o de ser a voz de sua geração.

Sloan consegue. Digo isso porque há tempos a cena de literatura fantástica necessitava de uma voz que refletisse as angústias do povo que “veio ao mundo” entre o final dos anos 90 e início dos anos 2000. A bolha da internet, o trabalho remoto, os planos de negócio das startups atuais e a inatividade frente a um mundo instantâneo foram temas que sofreram de seu próprio ambiente imediatista e respiravam com a ajuda de aparelhos em uma UTI artística sem dar sinais de recobrar sua posteridade. Até agora.

Com “A livraria 24 horas…”, Sloan consegue dar voz à sua geração nos apresentando uma trama que mistura o Google, um webdesigner, uma sociedade secreta e um insuspeito amor por livros que, de tão antigos, são impossíveis de serem lidos. Ao menos que você tenha o código secreto.

Como esta aqui não é uma resenha, mas apenas um convite (o livro está disponível na Amazon por poucos reais), deixo os detalhes da trama que envolve Clay Johnson e Kat Potente para outro tempo e espaço, me reservando aqui apenas o direito a deixar no ar uma questão transcendental.

Qual seria o seu código no livro da vida? Público, inacessível ou inexistente?

 

Será que a ciência matou a ficção científica?

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Nós gostamos de ficção científica pois ela nos promete um futuro irrealizável ou porque racionalmente acreditamos poder chegar lá, como provaram Julio Verne e outros autores? A testemunhar a situação atual das coisas, me parece que a primeira parte da sentença é a verdadeira.

Afinal, parece não existir população em Marte, passamos por muito a capacidade de memória de John Mnemonic (eram 80GB!) e ninguém está se alimentando de comida feita a partir de humanos.

Vale a pena a leitura deste post e o complemento com este outro, que analiza predições de Asimov sobre a vida na terra em 2014.

(Este pequeno post faz parte da Cooland#4, um painel de curadoria semanal que vai por e-mail para seus assinantes. Assine aqui)