Conheçam os Neanderthais do presente

Por em Ler

Então, um dia, veio a promessa de que teríamos ferramentas milagrosas que nos estenderiam o poder mental e laboral de forma que seríamos quase que como os superhomens deste vetusto (e estrábico) filósofo bigodudo. Engano pueril de crianças mesmerizadas por brinquedos, eu diria.

Pouco menos de vinte anos depois da avassaladora evolução em nossos canais de comunicação (não códigos, esteja bem dito), o que percebemos é um maremoto de informações sem sentido.

Ok, ok. O parágrafo acima, além de um nariz de cera digno de estagiário afoito em sexta-feira de chopp com os amigos, é lugar comum em todos os artigos, textos, resenhas e qualquer pedaço de conteúdo produzido sobre o tema.

Mas pouco se fala de como isso influencia a vida daqueles que fizeram destas ferramentas, técnicas, códigos e protocolos de exigência, seu estilo de vida. Ou o dna de suas atividades profissonais e criativas, desde que as duas sejam quase a mesma coisa.

Aves em movimento

E é duro, viu?

Embora não acredite no sentimento per si, já tenho estrada para seu saudoso. Hoje soa como conto da carochinha, crianças, mas  houve uma época em que tínhamos tempo para produzir. E já se reclamava na época. Entre produtores e contratantes daquela produção exista, mesmo que tácito, um respeito ao tempo. Quebrado no limite da normalidade factível, aquela que “fica difícil mas dá para fazer”, sabe?

Só que, assim como os blogs, matamos o tempo. O impacto sobre aqueles que necessitam de reflexão e pesquisa em suas atividades, atividades essas atreladas ao mercado de produtos e serviços (publicidade, marketing, conteúdo, música, cinema etc), está beirando o inacreditável.

Já ouvi gente dizerque leva o pessoal de pós-produção para o estúdio porque o cliente queria o DVD finalizado ali mesmo. Ou briefing que veio depois da criaçaõ, pois o prazo deste era posterior ao daquela.

Casos como esses parecem ter uma fonte secreta. É como se todos estivessem irmanados nesta estranha sociedade secreta cujo ritual iniciático parece basear-se na negação do tempo físico, contradizendo assim a própria natureza humana, aquela construída a partir do talento em interpretar o universo juntando pontos que outrora ninguém havia enxergado.

Enfim, não se enxerga mais os pontos. A claridade é muita. Subvertemos a caverna trocando-a pela possibilidade, de início irresistível, de olhar diretamente para o sol. Retinas queimadas, cera de ícaro derretida, pandora soltinha pelo pasto, entenda como quiser. Agora mesmo, temos apenas um eterno streamming de citações das citações.

Veja bem: não sei nem se tem volta. Algumas pesquisas indicam que o próprio cérebro tem sido remontado em função desta velocidade imensa que norteia a produção e o consumo de conteúdo. Não sei, sequer, se está errado.

Seremos nós (ou eu e mais alguns) algo como os Neanderthais do presente?

Creative Commons License Foto: Chico.Ferreira