Memo
, em: Ler.
Vai lá e grava, memória. Como se fosse um canal aberto numa imensa ilha de edição, cercada de momentos por todos os lados. Vai lá e grava estes momentos todos. De todas as qualidades quantos forem, em todos os matizes que vierem, nas cores que se apresentarem, dos tons, das maneiras.
Grava tudo, porque estou meio de stand-by por aqui. Cansei do sempre servir. E, principalmente, do não aproveitar. Sou para todos, menos para mim. Solícito e por isso muito solicitado. Esquecido e portanto, nunca agradado.
Vai lá e grava os sorrisos dos filhos, põe aí um pouco de reverb em cada um deles, dobra os canais e dá uma comprimida. Quero-os ainda mais altos e encorpados. Mas preserve sua inocência. É o seu ouro. Sua genuína força, pela qual luto preservar e ressinto já Ter perdido. Aliás, sua falta ecoa na base do meu crânio, tal cefaléia falsa e insistente – como um personagem. Chora sua ausência e fica me retrucando, como que cutucando com uma vara curta a onça que pensa que sou. Porque fostes me perder, ela pergunta. É a vida, respondo.
Grava, portanto, os primeiros passos da família. Que cresce amorfa mas coesa. Que parece nutrir-se de sua imperfeição natural. Pensando bem, a imperfeição é o alimento natural das famílias. Resolvida, ela é uma massa de gente pronta a partir para outra. E por enquanto estamos partindo só para a nossa. Dando risadinhas de vídeo-cassetadas de um final de tarde de Domingo.
Grava as palavras que escrevo, com medo de falá-las. Grava seu caminho até a posteridade, onde, reveladas, mostrem-me um Pai zeloso e sempre temeroso do futuro que nós mesmos construímos. Esteja presente portanto, memória, no dia que minhas palavras de hoje forem lembranças boas, sempre aquecidas, em rodas de fogueira, ou num dia em que a luz faltar e as crianças – não importa o tamanho que estejam – resolvam lembrar de um passado bom, que não deveria Ter passado.
Grava em alto e bom som, que nasci para estar onde estou, que fiz as escolhas certas, que abdiquei de vários confortos em prol de um bem-estar comum. Que estou feliz, embora sem meus mimos terrenos e bobos, que tocam, pulam e me fazem escrever mais rápido. Eu os conquisto, pois preferi começar do mais valioso e, assim, repleto do que me é mais caro, estar seguro para seguir adiante.
Grava para sempre, deixa aí no automático. Pois a vida começa a cada dia. E é no seu passar que percebo que sou aqui a Pedra Fundamental. E portanto, ígeno, devo ficar acordado até que todos durmam em tranqüilidade. Pétreo, rochoso e feldspático deve ser meu vigiar, pois dele dependem os quatro pequenos frutos dos meus sonhos. E só eu posso sonhar acordado.
Grava, memória. Que eu não quero lembrar. Quero viver.
