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O Brado Retumbante: a Distopia possível

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J.J. Abrams deve ter acompanhado interessado o primeiro capítulo de O Brado Retumbante, minisérie que estreou ontem na Globo. Assim como Frank Miller. Estivesse vivo, ou pelo menos presente nessa realidade, até mesmo George Orwell ficaria pensativo.

"Eu sou o imprevisto de vocês"

E dobraria-se em cólicas, quase metamorfoseando-se em inseto, o próprio Kafka, revendo Ministérios Inócuos em uma reunião protocolar e, assim, lembrando-se do seu Processo.

Em outra esfera, Dr. Bishop e a agente Dunham estariam bolando algum plano para investigar o que a trama deve desenrolar nos próximos capítulos. E, em perseguição feérica pelas terras planaltinas e maravilhosas, um enrrugado Bruce Wayne aceleraria seu POD atrás de mais um furo de reportagem noticiado, em cortes rápidos, pelo plantão da imprensa.

Que aliás, estaria atenta a todos os movimentos do Ministro da Justiça Floriano (José Wilker Nicholson). E por falar nele: o que seria senão o plasma, clone e homúnculo perfeito do Coronel Nathan R. Jessup, do Questão de Honra? Trejeitos, bocas, olhares e até o sumiço do pescoço pela elevação dos ombros… está tudo lá. We can´t handle the truth!

We can´t handle the truth

No roteiro costurado por Euclydes Marinho, Nelson Motta, Guilherme Fiuza e Denise Bandeira, o deputado Paulo Ventura (Domingos Montagner) é catapultado à Presidência da Câmara dos Deputados em uma armação política que visa tirá-lo da oposição. Pouco depois, em um acidente aéreo morrem o presidente e seu vice. Resultado: Paulo assume por 15 meses a direção do País.

Como não lembrar de uma Jornada do Herói mameluco em um “país cheio de mulatos e ginga” que recebe a notícia de sua primeira reviravolta depois de matar uma garrafa de malte escocês? Ou ainda que tenta reconstruir um casamento (o elemento mágico perdido?) e finaliza o primeiro capítulo tocando Ary Barroso em sua clarineta?

Salão Oval?

O Brado Retumbante é, portanto, uma distopia possível onde todas as referências, personagens, autores, poder e povo se encontram, como nunca, na (pseudo)história desse país. Esse me pareceu seu maior acerto: mostrar que identificamos nossa realidade em um ambiente distópico, justamente porque somos, nós mesmos, arquétipos poucos reais de um país em constante reformulação urgente.

E mais. Ao encerrar o primeiro capítulo de oito, ficou a questão: estamos fazendo ficção ou plasmando a próxima sucessão presidencial tucana?