Por que não leio críticas
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Dia desses, depois de muito postergar resolvi assistir o Clube da Luta (Fight Club – David Fincher, 1999). Para quem não lembra (ou não sabe) o filme conta a história da estranha relação entre Tyler Durden, rebelde revolucionário fabricante de sabão, e um funcionário burocrático padrão e sem graça, viciado em…grupos de auto-ajuda.
Achou esta sinopse sem graça? Pois esta é a primeira razão pela qual não gosto de ler críticas (ou resenhas) antes de assistir ao filmes, não importando quanto tempo isso pode levar. Isso porque é característico deste tipo de jornalismo enredar você numa tagline marketeira, a qual o jornalista, pelos deveres de sua profissão, representa. Acredite: ele não sabe muito mais do que você. E, sinceramente, se um filme precisa do conhecimento dos últimos 50 anos da história do cinema para ser um bom filme, não se engane, ele não é um bom filme.
Pois bem, ao dar o PLAY, esperava apenas um festival de pancadaria e afirmação masculina heterosexual. Assim que o filme foi vendido pelas críticas posteriores. E essa é a segunda razão pela qual não os leio.
Você nunca sabe quando este mesmo jornalista, por mais bem intencionado que seja, vai entender errado um filme. Aliás, melhor escrevendo para não me contradizer, você nunca sabe quando o entendimento deste jornalista será, per si, filtro suficientemente forte para fazer você se estimular demais ou de menos.
No caso específico do Clube da Luta, tive algumas surpresas. Ao longo das duas horas de exibição encontrei uma crônica de costumes que tem como cenário não um ringue, mas o turbulento e tenebroso de cada um de nós, nossa mente, sempre perturbada. Para quem já é versado nas narrativas cinematográficas o plot do filme fica claro logo nos primeiros frames inseridos à guisa de propaganda subliminar; para quem não é, segue como um festival de pancadarias que, ao final, se vê apenas complementado por um acesso de loucura seminal.
A terceira razão pela qual não leio críticas é que elas vão justamente nivelar quem escolher um caminho ou o outro, acima descritos. Em resumo: a crítica hoje é um beco sem saída. Na remota hipótese desse espaço um dia ser lido, sei que muitos serão os leitores que se sentirão cutucados. Vendemos hoje uma ideia de que todos produzem conteúdo relevante, todos são, em tese, críticos de cinema, treinadores da seleção, médicos e loucos.
Eu acredito que, antes de qualquer coisa, devemos honrar o trato entre nós mesmos e a tela escura. Contada a história, poucos segundos antes de adormecer feliz (ou amedrontado, ou excitado, ou desafiado), aí sim, vale dar uma lida nos colegas para entender qual a reação que este mesmo trato provocou neles.
Compartilhar a reação é ser a favor do bom cinema. Basear-se na reação para guiar suas escolhas é acreditar em…Tyler Durden.

