epifanias

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Seis Epifanias que mudaram a minha vida.

Eu sempre dei muita importância aos sentimentos. Não exatamente como expressão paralisante. Mas como força intelectual libertadora de fórmulas e preconceitos. Pensar livremente para mim é, em resumo, sentir por onde os conceitos vão. Ouvi-los me dá a tranquilidade que preciso para pensar. Sentir e depois racionalizar este sentimentos é, para mim, natural.

Sentimento é o combustível. Pensamento é o motor. Dentre tantos que poderia listar aqui, os sentimentos epifânicos são os que, via de regra, guiaram minhas escolhas pessoais.

Para relembrar: epifania é aquela sensação de última peça do quebra-cabeça, uma reação física e quase sobrenatural que invade seu corpo e faz você gritar coisas como “eureka”, “é isso aí: sol-sol-sol-míbemol!”, ou até mesmo: “vou chamar de Macinstosh, o que você acha Wozniak?”

No meu caso nem sempre foram grandes acontecimentos históricos, na verdade, tenho uma predileção por pequenos encontros e descobertas. Este artigo é sobre elas.

1979. Uma bíblia jogada nos fundos da casa.

Como grande parte dos filhos da classe-média dos anos 80, minha casa vivia em obras. O sonho da casa própria queria dizer comprar algo bem pequeno e ir expandindo salomonicamente.

Em função disso, vira e mexe os livros da biblioteca familiar eram jogados de um cômodo para outro, como, por exemplo, uma das edições da Bíblia Sagrada em um quartinho dos fundos.

Som de TV ao fundo e eu devorando, não o texto (meio chato…), mas as incríveis obras de arte ali reproduzidas.: “Como eles conseguem este realismo tão impressionante em cenas que não testemunharam. Quem são estes pintores?”

Corta para uma enciclopédia dos anos 60, com inclinações nitidamente positivistas (na verdade a coleção é até hoje um prato cheio para teóricos de conspirações variadas), e estou ali buscando informações sobre os pintores relacionados. “Hm, então não foi motivação religiosa, muitos deles sequer seguiam os preceitos e tinham a Igreja apenas como um de seus contratantes…” Estalo.

A informação é apenas o começo. Ela pode, e deve ser cruzada, combinada e remixada para novas conclusões

A partir dali, mesmo que cercado de modestas publicações, uma mudança rumo a uma necessidade de entender sobre tudo nunca mais abandonou minhas horas desperto.

1984. Michael Jackson em Thriller

Lembro vagamente de ouvir minha mãe comentar ao ver TV: “Ah, esse é aquele menino do Jackson Five, né?”

Como alguém pode produzir tanto, e tão radicalmente mudar a história da música pop em apenas um álbum? Como esse mix de referências (filmes B, musicais da broadway, música de gueto, gangs…) consegue soar equilibrado e dançante ao mesmo tempo? Já sabia como era importante cruzar informações, mas agora havia sido invadido por outro momento direcionador. E, em um estalo instantâneo. :

Ser criativo é visceralmente modelar o mundo que você vive para, enfim, deixar sua marca na história.

1994. Um anúncio meu exposto em uma festa comemorativa de um concurso criativo

Já com vinte e poucos anos e me formando, carregava dois momentos epifânicos no currículo. E, em função deles, havia decidido consumir informação como alimento fundamental e fazer do seu trato criativo minha forma de sobrevivência. E legado.

Já disse aqui que, mesmo o que é uma diversão, procuro desempenhar com certo esmero…e não era diferente nesta época. Tanto que, calhou que um dos anúncios que criei fosse o vencedor de um concurso universitário. Como prêmio eu poderia escolher (ou ser escolhido, não me lembro bem) a agência de propaganda em que faria meu estágio.

Tudo corria muito bem até que chegou o dia da festa para entrega dos prêmios. E aí, comecei a constatar uma situação que hoje, resumiria da seguinte forma: “Como essa turma de loucos pouco letrados e repetidores de fórmulas pode se achar criativa?” Estalo.

Embora a capacidade de transformar informação fosse meu alimento e, em função dela, faria meu legado, tive ali a nítida impressão de ter escolhido o lugar errado para começar.

Bom desculpe se você me conhece desta época, ou se foi meu dupla ou trabalhou comigo em uma das 10 agências pelas quais passei, mas, enfim, não era ali que eu queria estar.

1998. Um especial da Revista Exame

A questão é que tudo foi muito rápido. Mesmo tendo percebido isso logo na festa que, supostamente, dera início a minha carreira; e não esquecendo jamais a cara do meu pai: “Tem certeza que é aqui?”; uma coisa foi levando a outra, uma entrevista à próxima entrevista e quando dei por mim já era redator em uma das maiores agência do país.

Mas sentia que faltava algo.  Até que comecei a reparar em algumas publicações na mesa de periódicos do departamento de criação. Eram capas que hoje podem ser consideradas históricas. Um mahsup de edições brasileiras, americanas e europeias que, como em uníssono, falavam apenas uma coisa: um mundo de clicks iria substituir a realidade de bricks.

Empresas seriam 100% virtuais, propaganda, música, cinema, tudo seria online.Você poderia morar sozinho em um apartamento e solicitar tudo, de serviços à pizza preferida, pela internet.

E, o que era mais importante, todos as pessoas que optaram por fazer do consumo e recriação da informação seu alimento…estariam conectadas umas às outras em tempo real. No mundo todo.

Li, reli, levei para casa algumas, tirei cópias de outras. Como que se enxergasse uma nova bíblia, com novos artistas e novas biografias obscuras a minha frente, entendi onde, pelo menos na minha curta passagem pelo planeta, estariam aqueles a frente da inovação.

O momento em que fui, feliz, contar para meu Diretor de Criação que a partir daquele dia havia aceitado uma vaga como redator-arquiteto de informação em uma das primeiras produtoras web é por si só hilário: “Olha”, disse ele, “…eu já conversei com alguns amigos americanos e me disseram que esse lance de internet não dura uns cinco anos, é moda passageira…”. Ali, com a enseada de Botafogo ao fundo, rolaria o quarto estalo modificador:

É na internet que eu quero estar pelo resto da vida, porque a minha própria vida será passageira…

E larguei tudo. Enfureci alguns outros diretores de criação do já pequeno mercado de propaganda carioca, e fiz as malas para a primeira (ou segunda) produtora web da cidade. E lá, senti que ajudava a criar um novo mercado.

2002. Blogs = login + Publish

E, então, pouco antes da bolha que derrubaria de vez centenas de empresas de capital flutuante, um grande amigo me veio com essa: “Tem gente fazendo coisas bem bacanas usando um formato chamado BLOG, você já ouviu falar?”

Tinha ouvido vagamente, mas resolvi apelar para o velho esmero detalhista e ir estudar a fundo as plataformas, ferramentas, estilo da narrativa e a comunidade nascente que, batizada de Blogosfera, surgiria nos anos seguintes.

Pouco depois fui demitido e convertido em consultor da carteria de clientes que precisava da atenção da equipe que, em resumo, não tinha mais empresa para trabalhar. E me assumi como Freelancer FullTime pela primeira vez. E fiz disso o tema de um…blog. Estalo.

O meu legado, aliado ao poder de consumir e reprocessar informação, pode ser baseado em uma ou mais plataformas de conteúdo que eu mesmo mantenho e ao redor da qual congrego uma comundiade de conhecimento.

Os anos se passaram, o mercado reaqueceu e, mesmo assumindo cargos de Gerente de Conteúdo em algumas produtoras, só sosseguei quando levei este conceito acima para a minha própria empresa.

2011. Os cinco minutos finais da keynote do iPad2

E assim o fiz. Desde 2008, organizei um modo de pensar que fosse simples, que atendesse ao mercado com o mesmo esmero didático com o qual aprendi a aglomerar informação. Formei equipes variadas e com elas procurei sempre compartilhar experiências acreditando ser esta a única maneira viável de se trabalhar neste mercado.

Este é o momento em que as lembranças encontram a vida presente. O parágrafo anterior é uma obra em progresso, pois vários clientes neste mercado ainda não tiveram a chance de trabalhar com a nossa metodologia. E acredito que vão em breve. Mas, daí, assiti a este vídeo abaixo (vale a pena ser visto na íntegra, mas separe os 15 minutos finais para efeito de nossa discussão):

Visivelmente abatido e furando uma licença médica pois admitiu que não poderia ficar de fora do momento pelo qual ele e sua equipe trabalharam tanto, o homem que reinventou a computação pessoal, a indústria da animação e da música, fazia seu discurso final. A minha constatação foi absolutamente simples: este é o úlitmo keynote de Steve Jobs e ele nos brindou com um panorama de uma nova era.

Quem teve ouvidos, ouviu: “está no DNA da Apple saber que a tecnologia por si só não é suficiente. O segredo está em misturá-la com as ciências humanas e com as artes. E nunca isso foi tão verdadeiro como nesta era “pós-PC”. Estalo.

Uma nova era demanda novo tipo de abordagem na arte de contar e divulgar histórias. E é isso que eu quero fazer e é a frente disso que eu quero estar

Que rodem em iPads, em celulares. Que sejam em texto, áudio ou vídeo. Inclusive os três juntos. Mas que sejam histórias.

Sites e blogs são nossos fósseis vivos. eBooks e aplicativos, nosso salto evolutivo.

 
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