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Três marcas de tulipa e ele olha fixamente. Com a sua caneca de chopp tenta simular os arcos olímpicos, numa busca sem sentido pela harmonia que o logotipo representa.

Como o mais importante pode ser competir, se ali num bar pequeno o suficiente para cheirar a peixe-batata-frita-pastel de vários dias, não há competição justa contra o tédio?

A imagem de salgadinhos gordurosos boiando numa frigideira apagada inicia um lento processo de revolução em seu estômago quase-vazio. Tudo é muito rápido e ele corre para o banheiro contorcendo-se em estertores e ânsias.

Vômito, pés patinando num chão sem cor, o rosto barbado num espelho repleto de fungos. E, porque não, um mundo mais leve. Tudo bem que só faltou aquela luz que pisca, apaga e acende novamente em filmes de suspense, pensa ele num humor intruso. Só faltou também um…pronto a luz apagou, piscou e acendeu. Mais uma vez tenta entender o que está fazendo ali. Mas não sabe.

O gás carbônico da cerveja nacional faz bolhas não pararem de subir, à sua espera. Pudéssemos ter uma câmera no contraplano agora veríamos sua silhueta aproximando-se ainda desfocada e, em primeiro plano, o pequeno cartão comercial, vemelho, ao lado de sua tulipa. A mesma câmera agora trocaria de foco rápidamente e no rosto já próximo um ar de incredulidade, de surpresa e de cansaço (este bem lá no fundo) encontraria no dito cartão apenas um e-mail: gire@360graus.com

(continua…)