Rio2c, o que vi e o que eu não vi

Estou no subsolo do terminal Alvorada, que poucos anos atrás, antes da farra da Copa-Olimpíada, era um matagal com duas coberturas para os ônibus pararem e hoje é um pedaço do Centro, no novo Centro em pedaços que é a Barra da Tijuca.

Após não enfrentar fila no credenciamento da Rio2C, me entregam um cartão para pendurar no pescoço que oferece a todos que por acaso venham de encontro a mim a chance de ler “Creator”. Lembro da Bia Granja, que praticamente inventou o termo e hoje dá aulas sobre isso, boosting creators que ela ama.

Subo correndo escadas infinitas, que parecem uma prancha dessas que vocês usam para subir em seus transatlânticos e partir para um cruzeiro sem fim, sem destino e sem água potável.

Em busca da água potável de novos conhecimentos, entro no primeiro painel. Sala 3. Alguns dos avatares que eu costumo ver postando, desta vez, têm corpos e falam. O tema é como criar um hackaton, que é o nome que se dá às concorrências agora, onde todos colaboram para o bem comum de uma marca e, ao final, decidem quem leva a conta.

Em um slide posso ver algo parecido com o famigerado design do Danton Dallagnol apontando todas as setas para o culpado que, neste caso, é a ideia que — segundo a falante agora — , sofre bastante até ir ao ar. Quem não sofre, não é mesmo?

Uma personalidade que acompanho dada a sua relevância e interessante postura, levanta a sua justa bandeira, sinalizando que nos grupos que participa vê pouca representatividade e gostaria de ouvir e ver mais vozes e recortes de realidade diferentes do que a do homem-branco-hétero-normativo. É um pensamento válido. Quem não sofre, não é mesmo?

Lembro que todos os pensamentos são válidos e como neste tipo de evento, você pula mais do que deadline de cliente, decido não ficar para a rodada de considerações deste primeiro painel e parto para o segundo, no qual pretende-se debater o surgimento de equipes de produção de conteúdo dentro do escritório das marcas. Ou seja, houses. Só que agora são de content e não da propaganda morta-mas-vida desde os anos 80.

A experiência agora é outra. No lugar de avatares, gente com a qual já travei debates interessantes em reuniões na época da farra Copa-Olimpíada. O mais engraçado: na época era sobre a validade de um hackaton em comunidades carentes. O mundo dá tantas voltas quanto uma trilha feita em um Jeep sem marcha reduzida ou suspensão (de descrença) reforçada.

Após ver o debate onde todos basicamente se debatem (tremelicam) sobre seus desafios diários de mostrar porque foram contratados, fica claro que seguir de sala em sala para ver os keynotes que eu mesmo faço seria, no mínimo, perda de tempo. E, assumo o risco que todos devem assumir em um evento horizontal como o Rio2C: ser provocado por áreas não tão próximas a você.

E parto para uma masterclass sobre pitching em documentário audiovisual. Afinal, tá na hora de justificar o papelão pendurado no pescoço. Em uma exposição interessante — embora meio lenta e reflexiva — , os apresentadores levam a todos os participantes a um passeio por formatos, escolhas, linguagens e referências.

Todos criadores geniais reunidos aqui, a próxima safra de roteiristas e diretores, penso. Depois lembro que estão ali para serem treinados naquilo que os autores dos keynotes dos paineis anteriores fazem muito bem: vender a sua ideia.

Mas, vale a nota: aqui, eles realmente são donos de suas ideias, tentam posicionar a sua arte a serviço de alertas, de emocionantes jornadas ou, até mesmo, para justificar a sua própria existência.

Caminho para mais um painel tão reflexivo quando o mestre anterior, em uma dúvida que me acompanha eternamente: por que é tão difícil dar esse passo definitivo? Por que essa vida entre o keynote e o roteiro de algo original é tão angustiante? Sou eu mesmo o personagem de um roteiro escrito somente para garantir a vida classe média de todos os dias?

As perguntas se sucedem e, quando vejo, já estava no final do quarto painel do dia onde heads de canais infantis discutiam o quanto aproveitam de conteúdo gerado online para a grade principal. O assunto perde a relevância para mim porque uma das apresentadoras bate o pé e faz birra porque seu trocador de slides — um controle remoto que ninguém entende — não funciona. Sacode a cabeça, empurra o queixo para trás fazendo nascer uma papinha.

Paro de prestar atenção nas apresentações seguintes para perceber que ela não consegue sair desse lugar de incômodo, como a criança que errou a sua única fala na peça da escola. Cadê a mãe dessa menina gente, para contar que a vida não é essa coca-cola toda?

Bom, não a coca-cola que se mistura com Mentos para fazer um chafariz como em alguns dos diversos vídeos do irmão de um dos entrevistados do painel para o qual vou em seguida.

Lembra da Bia Granja? É ela no palco agora conversando com dois empreendedores independentes de conteúdo. Um famoso duas vezes, “a única pessoa do mundo que saiu do YouTube e voltou para fazer um sucesso maior”, segundo ele mesmo. Outra, uma educadora financeira focada e determinada, cujo sucesso rende views e dividendos.

Bia se esforça em posicionar o assunto para além das trajetórias pessoais e egocêntricas da dupla. Ambas justificadas, vale o lembrete. O sucesso tem seu preço e valor. De relevante, só mesmo a indignação que nasceu ali e virou post depois, pontuando as barreiras da profissionalização deste tipo de produtor de conteúdo. Bia is boosting always.

E como estou dentro deste transatlântico de concreto que é a Cidade das Artes a maré vira e de boosting vamos para a bosta que foi o fechamento do dia com um pretenso “O artista como marca”. Quando comecei a ficar mareado com o não entendimento de perguntas simples feitas pelo esforçado entrevistador a uma artista-marca, saí de cena.

No segundo dia, sigo firme na postura de provocar outras reflexões em novos territórios. Mas, o dia começou mais com uma perda, no caso o painel de Bruce Miller que contou a história por trás da criação da série “The Handmaid’s Tale”. Enfim, o dever chamava.

No período da tarde, quando finalmente embarquei no transatlântico das artes pela segunda vez, ouvi Bob Lefsetz, crítico musical com cara de blogueiro tardio, falar sobre como se constroem os hits atuais, como se comportar na era dos algoritmos etc. Um pensamento promissor, citando Bob: “fala-se muito de que conteúdo é o rei, mas a distribuição tem papel ainda mais importante”.

Com a maré virada para o lado dos criadores, conheço ainda a turma da FoxLab, que apresenta formatos e acertos na criação de branded content de altíssima qualidade. Para fechar, uma olhada na palestra rápida, divertida, leve e bastante instrutiva sobre acertos em produção de histórias para esse celular com o qual, muito provavelmente você está lendo este artigo. A palestra foi com um executivo daquela empresa que está em situação bem particular recentemente. (desde a sua fundação. Shhh.)

Volto somente na sexta-feira, após um dia de reuniões e propostas para novos clientes, em tempo de quase não entrar no painel da Netflix sobre como é criar histórias de repercussão mundial. Sala 1 lotada, o cara dos 3% — que todo mundo viu nasceu como um vídeo de YouTube — sendo absolutamente sincero em avaliar que o criador-médio não tem como medir este tipo de impacto, qual seja, algo que você escreveu ser visto instantaneamente em 190 países.

Vários trailers e aperitivos do que vem por aí e eu continuo sem entender como é que a Netflix faz a mágica de se equilibrar entre produtora e distribuidora. Quando ela é mais forte senão nos dois? Ou, no fundo, se estou pensando se a vontade de morar dentro de uma sala de guerra de roteiristas aumenta a cada vez que vejo este tipo de discussão ou se é só um ânimo tardio.

Saio para dar uma volta, passo pelo painel abandonado do Queremos!, uma pena. Tomo a mesma coca-cola que me tentou vender histórias no painel da FoxLab — com zumbis disputando uma vending machine — respiro um pouco e vejo a porta da Sala 1 aberta.

Lá dentro, um representante de indústria de tecnologia de ponta apresenta com aquele humor inglês (que na Inglaterra eles chamam apenas de nosso jeito de ser) os conceitos de AR, VR e MR, com destaque para o último segundo ele a última fronteira do entretenimento. Mixed Reality, basicamente quando abandonaremos o celular de vez e por trás de óculos leves e discretos nos será oferecido a Matrix definitiva, com apelos e conteúdos quase palpáveis.

Está chegando o final, é sexta-feira e a vida de dono de produtora que está lançando uma ferramenta para o seu mercado começa a me chamar. E-mails precisam ser respondidos antes das questões fundamentais do 11º parágrafo deste artigo. Mas, me permito uma parada para curtir o palquinho com uma banda de jazz contemporâneo, encostar em um degrau e refletir sobre estes três dias.

Respiro fundo. Fecho os olhos.

Eventos horizontais são um convite à perda de foco. Por isso, ir buscar aquilo que provoca o desconforto e tira você do lugar comum é tão importante. Veja, somos cercados e provocamos bolhas de auto-satisfação o tempo todo no mundo das timelines. Por que não, quando isso está fisicamente em nosso controle, fazer algo diferente? Por isso, a decisão de ir em busca de painéis de áreas não tão ligadas ao meu fazer diário foi um acerto. E recomendo a todos.

Mas, mesmo assim, muita gente soou não muito preparada, nessa maratona. Não sei nem se posso criticar. Eu mesmo outro dia, em um evento do Jornal o Globo rendi menos o que eu esperava, falando de um assunto com o qual lido diariamente desde 2008. A vida pressiona, os prazos e os boletos estão aí e não é todo dia que a gente brilha. Mas ler slide de 4 parágrafos de texto como os donos de algumas casas de música fizeram em seus painéis, não dá.

Networking, esse grande inimigo. Perdido em reflexões, justificando a tabuleta de creator, pensando em criar, esquecendo de networkar, sequer dei uma olhada nas salas de one-to-one meetings. A promessa era agendar uns minutos com players do mercado para fazer o seu pitching. Se alguém participou, depois comenta aí.

Dou uma última olhada na banda, giro a cabeça pela vista e dedico encerrar a participação na edição 2018 do Rio2C. Faço o trajeto de volta a pé, conectando-me ao shopping ao lado através do mesmo terminal Alvorada no qual comecei essa jornada.

Ando rápido, olhando 360º em busca de uma possível ameaça neste Rio de Janeiro sem lei. Ao encarar a passagem subterrânea final, camelôs vendem toda a sorte de tecnologia pirata. Chego ao destino, pretensamente seguro e, ainda assim, achando essa última experiência a mais imersiva de todas.

Perigo aumentado, realidade mixada, conteúdo virtual. O melhor roteiro ainda é a vida real.