Penso#4 – As mesas de Christoph Waltz

P

Subo as escadas, como faço todos os dias. Um cartaz de filme de Tarantino olha para mim e, despistando o riso lateral após a lembrança do porque evito que ele apareça em videoconferências (tem a ver com a iconografia maldita de sua herança pós-guerra), algo começa a me incomodar.

Faço uma arqueologia mental, e conto as vezes em que Christoph Waltz apareceu acompanhamento de uma… mesa. Seus discursos comedidos, o controle de gestos e movimentos, de alguma forma, estão sempre relacionados ao fato dele estar sentado confortavelmente em uma mesa e ter um interlocutor. 

Busco como tema para o Penso#4, resgatar os motivos e entender esse sentimento. Levo a provável audiência para uma viagem que começa em 1941, passa por 1860 e poucos e termina em um futuro sem números, mas nos quais ciborgues são encontrados no lixão de cidades abandonadas, pelo mesmo ator.

Peço que dêem o PLAY. E comentem em mauroamaral.com.

Para além da experiência auditiva

Transcrição do episódio

Subo treze degraus como em todas as manhãs, após afazeres domésticos e me preparar para seguir trabalhado em casa. Todos os trabalhos, portanto, domésticos.

Percebo como é diferente a realidade do home-office, despida da lenda da performance incansável, em suas mazelas.

Reparo que, apesar disso, sobre a mesa, todas as existências possíveis estão bem organizadas. A bibliografia dos desafios de 2019-2020 à esquerda, o códice ao centro, os boletos insistentes à direita.

O fluxo, ainda pulsa.

Levanto a cabeça e, do alto da estante improvisada, um cartaz me olha. Sorrio de lado, lembrando como tenho receio desse cartaz aparecer nas conferences call, em função de sua iconografia maldita de pós-guerra. Bastardos Inglórios foi um filme fora da curva do diretor Quentin Tarantino, o primeiro de uma suposta trilogia, segundo o próprio diretor em uma entrevista de 2012.

Peço desculpa a cronologia mal organizada e levo minha provável audiência para 1941.

Hans Landa toma seu copo de leite, discorrendo sobre o poder dos boatos sobre os fatos com o Senhor Lapadite.

Diálogo 1 – Bastardos Inglórios e um copo de leite

Landa: De acordo com esses documentos, há explicação para todas essas famílias, exceto os Dreyfuses. Parece que no último ano desapareceram. O que me leva a concluir que, ou são muito bons em fuga, ou alguém os escondeu muito bem. O que ouviu sobre os Dreyfuses, Monsieur LaPadite?

Monsieur LaPadite: Só boatos.

Landa: Adoro boatos! Os fatos podem ser frustrantes, ao passo que boatos, verdadeiros ou falsos, podem ser bem reveladores. Então, Monsieur LaPadite, que boatos ouviu a respeito dos Dreyfuses?

Monsieur LaPadite: Novamente, são só boatos, mas soubemos que os Dreyfus foram para a Espanha.

Landa: Então, ouviu boatos de fuga?

Monsieur LaPadite: Sim.

Landa: Como não conheço os Dreyfuses, me confirmaria os membros e seus nomes?

Monsieur LaPadite: Eram 5. O pai, Jacob. A esposa, Miriam. O irmão dela… Bob.

Landa: Quantos anos tinha Bob?

Monsieur LaPadite: 30… 31.

Landa: Continue.

Monsieur LaPadite: E os filhos, Amos…e Shoshanna.

Landa: A idade das crianças?

Monsieur LaPadite: Amos… 9 ou 10.

Landa: E Shoshanna?

Monsieur LaPadite: Shoshanna tinha… 18 ou 19, não tenho certeza.

Landa: Bom, acho que é tudo.

A mesma postura se repete em 1945, em seu reencontro com Soushanna e quase ao final do filme, quando negocia com o Tenente Aldo Raine e o soldado Utivich (B.J.Novak) sua rendição, sua ajuda para terminar com a Guerra. Lembro que é a famosa cena do:

Diálogo 2 – Bastardos Inglórios e… That’s a Bingo!

Landa: Bom, voltando à questão de seus 2 sabotadores italianos. Neste momento, Omar e Donowitz, devem estar sentados onde os deixamos. Lugares 0023 e 0024, se não me falha a memória. Os explosivos continuam nos seus tornozelos, prestes a explodir. E sua missão, que poderíamos chamar de complô terrorista, neste momento, está em curso.

Aldo: É uma história interessante. Qual a próxima? Eliza no gelo?

Landa: Entretanto, tudo que preciso fazer é pegar esse telefone. Informar ao cinema e seus planos vão por água abaixo.

Aldo: Se eles ainda estão lá e SE ainda estão vivos, e são muitos SE, não há como tirá-los sem que explodam as bombas.

Landa: Eu não tenho dúvidas de que uns alemães morrerão, que arruinará a noite, que Goebbels ficará muito furioso pelo que fez a sua grande noite. Mas você não pegaria Hitler, nem Goebbels, nem Goring ou Boorman. E deve pegar todos os quatro para por fim à guerra. Mas se eu não pegar esse telefone, você pegaria os quatro. E se você pegar todos os quatro, acabaria com a guerra…esta noite. Então, senhores, vamos discutir a perspectiva “Fim da Guerra essa noite”. Do meu ponto de vista, a morte ou o resgate de Hitler, depende da minha reação. Se não faço nada, serei o causador da morte dele, mais que vocês, concordam?

Aldo: Acho que sim.

Landa: E você, Utivich?

Utivich : Também acho.

Landa: Srs., não pretendo matar Hitler, nem Goebbels, nem Göring ou Bormann, e muito menos ganhar sozinho a guerra para os aliados, para mais tarde estar diante de um tribunal judeu. Se quiserem ganhar a guerra esta noite precisamos fazer um acordo.

Aldo: Que tipo de acordo?

Landa: Do tipo que não teriam autoridade para fazê-lo. No entanto, tenho certeza que sua missão tem um Comandante. Um General. Eu apostaria no…Serviço Secreto Americano, meu palpite. Esse foi no bingo! É assim que dizem, “foi no bingo”?

Aldo: Só dizemos… Bingo!

Landa: Bingo! Que divertido! Divaguei, onde estávamos? Ah, fazendo o acordo. Logo ali, há um poderoso rádio transmissor/receptor. E atrás dele, um operador muito competente, Herman. Consiga alguém para o outro lado do rádio, com poder de assinar para autorizar meus…vamos chamar de meus termos de rendição condicional para ser mais conveniente.


É a primeira aparição de Christof Waltz que tenho notícia e, ainda dentro do cinema, lembro sua incômoda noção de tempos e movimentos, além dos variados sotaques em francês, inglês e alemão.

Revivo essa sensação incômoda como se fosse a primeira vez, mais uma vez.

Não sei o porquê, mas desconfio que é o seu descompromisso com a urgência ao seu redor. Tudo em Hans Landa são gestos e espera e tensão suspensa. E isso, me causa um estranhamento que vai além do absurdo daquela personagem.

Guardo esse pensamento em fogo brando.

Reparo que estou invadido por esse incômodo e, enquanto deixo as cenas icônicas do sexto filme de Tarantino requentar, me pego pensando: será que a cena se repete em outros filmes ao autor? A sensação é de que sim.

Vou em busca de mais alguns títulos que, se a minha memória não me trai, podem ter o comportamento que tanto me incomodou.

Dou play em Django Livre, coincidentemente, do mesmo diretor. Desta vez, temos Dr. King Schultz que explica para um atônito Django que ele, na verdade, não é um dentista.

Decido pedir para a provável audiência alguns segundos de abstração para fazer o desenho mental. Temos a exibição de um método detalhado para retirar o chopp, a cerimônia ao topar servir a bebida somente depois da mesa arrumada.

Diálogo 3 – Django Livre, a cena no bar

Dr. King Schultz: Parece que teremos que nos servir. Sente-se, rapaz.

Django: Que tipo de dentista você?

Dr. King Schultz: Apesar da carroça, não trabalho como dentista há 5 anos. Agora tenho uma nova profissão. Caçador de recompensa. Você sabe o que é?

Django: Não

Dr. King Schultz: Assim como o comércio de escravos troca dinheiro por vidas humanas, o de recompensas troca por cadáveres. Prost! O governo estipula a recompensa pela cabeça de um homem. Eu rastreio, encontro e mato este homem. Depois eu levo o corpo para as autoridades. Às vezes é mais fácil falar do que fazer.

Dr. King Schultz: Mostro o corpo as autoridades, provando que de fato o matei. E a essa altura, as autoridades pagam-me a recompensa. Igual à escravidão, é um negócio ‘carne por dinheiro’.

Django: O que é recompensa?

Dr. King Schultz: … como um prêmio.

Django: Você mata pessoas e eles te dão um prêmio?

Dr. King Schultz: Certas pessoas, sim.

Django: Pessoas más?

Dr. King Schultz: Quanto piores são, maior a recompensa. O que me leva a você. Devo admitir que estou num dilema com você. Por um lado, eu desprezo a escravidão. Já por outro, preciso de sua ajuda. Se você não puder recusar, tanto melhor. Bom, por enquanto vou usar essa balela de escravo a meu favor. Dito isso, ainda assim me sinto culpado. E gostaria que nós chegássemos a um acordo. Eu estou procurando os irmãos Brittle. Entretanto, estou em desvantagem nessa empreitada, já que não os conheço. Mas você sim, não é?

Django: Sei bem como eles são.

Dr. King Schultz: Ótimo. Então, eis aqui a minha oferta.


Lá está. De novo e novamente, Christof Waltz e uma mesa. E, sobre ela, toda uma série de ensinamentos a serem passados, em seu tom revestido de uma animação um tanto quanto contida, seus sotaques e maneirismos.

A progressão desse roteiro é fenomenal e, dessa vez, é o único suspiro do Coronel Landa que temos. Mesas vão aparecer ainda no encontro com Calvin Candie (Leonardo DiCaprio) tanto no jantar quanto na explicação sobre frenologia. Mas o tom é outro.

Pareço relaxar e deixar essa ideia fixa de lado. Mas, ainda assim…

Baixo, legendo, coloco no pendrive um filmeco bobo de aventura, Alitta. (Robert Rodriguez, 2019).

Bingo.

Acontece novamente.

Após recuperar uma cyborg de tecnologia raríssima, Dr. Dyson Ido resolve trazê-la para o mundo dos vivos novamente, com uma palestrinha toda carinhosa e especial, oferecendo-lhe uma laranja para testar os seus sensores neuronais.

Diálogo 4 – Alitta e sua laranja

Dr. Ido: Dói em algum lugar?

Alitta: Não

Dr. Ido: Dormência?

Alitta: Não

Dr. Ido: Disfunção motora?

Alitta: Só um pouco de fome.

Dr. Ido: Coma isto. Vai subir os seus níveis de açúcar. Receptores de sabor funcionando.

Alitta: Obrigado.

Dr. Ido: Vai gostar muito mais se descascar.

Alitta: Sem querer ser indelicada…mas, eu conheço você?

Dr. Ido: Na verdade, não. Eu sou o Dr. Dyson Ido, e ela é a enfermeira Gerhad.

Alitta: Vocês sabem quem eu sou?

Dr. Ido: Bem… esperávamos que você explicasse essa parte. Já que você é um cyborg de substituição total e a maior parte do seu cibercorpo foi destruído. Não achamos qualquer registro. Não achamos qualquer registro. Mas o seu cérebro que é praticamente humano, estava milagrosamente intacto. Teoricamente, você deveria se lembrar de algo.

Alitta: Bem… que me deu um branco. Na verdade, um branco total. Eu nem mesmo sei o meu nome.

Dr. Ido: Vamos olhar pelo lado bom. Suas lágrimas funcionam.


Deixo de fora do roteiro do programa, propositalmente, toda a possível metáfora da maçã enquanto fruto do conhecimento e blá, blá, blá para perceber que Waltz está mais suave agora, não tão metódico (embora opere máquinas e robôs que o auxiliam na cirurgia), mas ainda assim professoral. Noto que o incômodo retorna. Dou pause. Quero entender o porque disso. Rememoro os detalhes.

Tento entender por que esses elementos incomodam tanto ao ponto de me causarem essa dissonância cognitva. E começo a traçar algumas hipóteses.

Tenho um primeiro impulso em creditar esse incômodo se dá pela biografia do ator. Não é comum – embora possamos contar meia dúzia de casos – de atores estrangeiros que se deram bem em Hillywood. Mr Waltz com certeza é um deles. Ele nasce em Viena, é filho de profissional do cinema, neto de psiquiatra famoso e começa a carreira nos palcos. Depois, vai pra TV e só vem à tona para o grande público justamente no papel do oficial Nazista no filme de Tarantino. Lembro de sinalizar: a atuação rendeu meia dúzia de prêmios, incluindo o de melhor ator em Cannes.

Mas isso seria preconceito.

Avalio se não seria o caso de se tratar, APENAS, de uma cena comum, que relaxa a audiência por sua familiaridade e, utilizando esse mecanismo mental, propõe uma virada na trama.

Mesas são icônicas por si só. A Santa Ceia se dá ao redor de uma. Tratados para iniciar e terminar diversas guerras também. A ditadura no Brasil é decidida em debates acalorados em meio à cúpula militar. Linko o áudio dessa reunião que foi tema de um dos melhores episódios de um dos melhores podcasts brasileiros de 2018, o Presidente da Semana.

Lembro que até por isso, a hipótese perde a sua força. Elas sempre estavam lá. Por que quando Christof Waltz está nelas, o incômodo acontece?

Saio para comprar pães, caminho em meio à natureza carioca e, de repente, me vêm a terceira hipótese.

Não tem nada a ver com as cenas o ator em si.

A situação me causa o estranhamento porque sinaliza uma possibilidade de existência inteiramente diferente daquela com a qual estou acostumado: manter-se o mesmo ao longo de toda a sua história (ou de sua filmografia) e conseguir fazer coisas diferentes e recompensadoras apesar disso.

Eu estranho é a integridade. A consistência.

A possibilidade de entender a evolução pessoal não como um ato de constante mudança. Mas como um compromisso com a permanência APESAR das constantes mudanças.

Lembre que, para isso, é preciso entender a sua própria permanência. Ou aquilo que nunca vão mudar em você, não importa o quanto tentem.

Cruzo os braços, olho para dois prisioneiros americanos. E a única expressão que consigo dizer é:

BINGO.

Mauroamaral.com é um projeto que visa resgatar o contato direto entre produtores de conteúdo e suas audiências, contato que foi pouco a pouco silenciado pelas timelines movidas por algoritmos.

Ele não se resume a mas começa e termina nesse podcast, de mesmo nome, e que se define como “o contato direto entre o fluxo de minha consciência e os ouvidos da sua”.

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Sobre o autor

Mauro Amaral

Meu principal foco de atuação é a criação de projetos de conteúdo interessantes, divertidos e leves para marcas, organizações e produtos.

Em função desta opção, transito bem entre jornalismo, publicidade e entretenimento, pesquisando continuamente e filtrando ativamente as tendências do momento para aplicá-las no dia a dia dos meus clientes.

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