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O que a IA ainda não sabe fazer: gosto, julgamento e o valor dos profissionais criativos
A IA avança rápido na execução, mas o gosto humano é o argumento mais sólido para o futuro de diretores criativos.
By Mauro Amaral Posted in Radar on 17/03/2026 0 Comments
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Em 1995, antes do seu retorno à Apple, Steve Jobs disse sobre a Microsoft algo que parece datado mas permanece cirúrgico: a empresa tinha engenheiros brilhantes, produtos funcionais, market share dominante mas não tinha gosto. M.G. Siegler usa essa frase como ponto de entrada para uma das questões mais relevantes do momento: à medida que a inteligência artificial se torna tecnicamente mais capaz, o que exatamente ainda separa um profissional humano de um agente de IA?

A resposta não é “criatividade” no sentido vago em que o termo costuma ser invocado para tranquilizar consultores ansiosos. É algo mais específico, mais operacional e mais defensável: julgamento. A capacidade de tomar decisões esteticamente coerentes em contextos ambíguos, onde não existe resposta tecnicamente correta — apenas respostas mais ou menos adequadas para aquele cliente, aquela audiência, aquele momento de mercado.

Para quem trabalha com comunicação, estratégia de conteúdo ou consultoria criativa, esse é precisamente o tipo de argumento que faltava. Não porque seja novo — profissionais criativos sempre souberam que seu diferencial não era técnica pura — mas porque agora existe um nome para ele, uma estrutura para comunicá-lo, e evidências empíricas de por que a IA ainda não chegou lá.

O ato de destilar

Siegler propõe um experimento mental. Imagine que você dá a um sistema de IA todo o vocabulário da língua espanhola e capacidade computacional para combinar palavras em infinitas sequências. Tecnicamente, em algum momento esse sistema produziria Dom Quixote. Mas Cervantes foi infinitamente mais eficiente porque tinha gosto: sabia qual versão descartar, qual caminho de prosa valia a pena seguir, qual personagem precisava de mais espaço para respirar.

A IA gera. Humanos com bom julgamento destilam.

Esse ato de destilar não é arbitrário. Ele nasce de algo que modelos de linguagem ainda não conseguem replicar com consistência: experiência vivida. Não dados processados — experiência. A memória de um hotel onde a vista compensava o barulho da rua. O instinto de que uma certa paleta editorial vai ressoar com uma audiência específica sem precisar passar por um checklist. A sensação, difusa e real, de que aquele tom está ligeiramente errado para aquela marca.

Quando um cliente contrata uma consultora de conteúdo para refazer o posicionamento editorial da empresa, ele não está pedindo uma combinação probabilisticamente ótima de palavras. Está pedindo que alguém com gosto calibrado — com memória de mercado, com sensibilidade de audiência, com perspectiva de fora — tome decisões que ele mesmo não consegue tomar porque está perto demais do próprio negócio. Esse é o trabalho real. E nenhuma ferramenta de IA, por mais eficiente que seja na execução, responde por esse trabalho.

O risco dos dados sintéticos

Siegler introduz um ponto técnico com implicações diretas para quem produz conteúdo profissionalmente. Quando modelos de IA são treinados em outputs de outros modelos — os chamados dados sintéticos — eles se afastam progressivamente das preferências humanas que servem de âncora de qualidade.

A analogia é precisa: as temporadas finais de Game of Thrones, produzidas sem os livros de George R. R. Martin como referência, perderam coerência narrativa. Sem os trilhos do gosto humano, a narrativa entrou em colapso. O mesmo risco existe para modelos que aprendem com outros modelos em vez de aprender com produção humana original.

Para agências e consultoras de conteúdo, a implicação estratégica é imediata: conteúdo humano com perspectiva distintiva se torna cada vez mais valioso — não apenas para a audiência humana, mas para os próprios modelos de IA que precisam de sinal de qualidade para se calibrar. Produzir conteúdo genérico, otimizado para volume e velocidade, começa a ser uma aposta de alto risco tanto para quem o produz quanto para quem o contrata.

A armadilha da personalização

A resposta mais imediata dos grandes labs de IA ao problema do gosto é personalização: o modelo aprende suas preferências e as espelha. Se você prefere textos diretos a textos poéticos, o modelo aprende isso. Se você prefere um tom de autoridade a um tom de proximidade, ele calibra.

Siegler aponta o limite desse modelo com precisão. Gosto não é apenas sua própria preferência sendo validada. É também a capacidade de incorporar e interpretar as preferências de outras pessoas — para decidir o que é certo para elas, em contextos específicos, com objetivos específicos, para audiências que você conhece mas o sistema não.

Quando uma estrategista de conteúdo define a linha editorial de um cliente, ela não está aplicando as preferências do cliente em formulários pré-definidos. Está usando julgamento próprio para decidir o que o cliente deveria querer, o que vai funcionar para a audiência dele, o que vai distinguir a marca do ruído existente no mercado.

Esse processo envolve incorporar múltiplas perspectivas, arbitrar entre elas e tomar decisões que nenhum dos envolvidos conseguiria tomar sozinho. Personalização resolve parte do problema. Julgamento resolve outro, diferente.

O teste aplicado ao conteúdo

Siegler usa o exemplo de reservar uma viagem com agentes de IA para ilustrar onde o julgamento ainda falha. A IA conseguirá fazer a reserva tecnicamente em breve. Mas conseguirá escolher o hotel certo?

A escolha envolve micropreferências que o usuário não consegue articular: a sensação de que certas fotos de lobby prometem uma experiência que outras não prometem, a memória de que hotéis com certo tipo de nome tendem a decepcionar, o instinto de que uma localização específica vai funcionar melhor para o tipo de viagem que está sendo planejada.

O mesmo teste se aplica a qualquer decisão editorial. A IA consegue escrever um post para LinkedIn. Mas consegue decidir que esse tema específico não deveria ser um post — deveria ser um artigo longo? Que o cliente não deveria publicar agora, porque o timing do mercado vai enterrar o conteúdo? Que o tom correto para essa audiência não é o tom que o cliente acha que quer?

Essas não são perguntas técnicas. São perguntas de gosto. E quem responde por elas, por enquanto, é o profissional humano na sala.

O argumento comercial

A conversa sobre IA e trabalho criativo tem oscilado entre dois extremos igualmente improdutivos: o pânico de que tudo vai ser substituído e o triunfalismo de que nada vai mudar. Siegler oferece um terceiro caminho — mais preciso e mais útil para quem precisa justificar o próprio valor para um cliente.

A IA avança rapidamente em execução. Escrever, rascunhar, formatar, adaptar, traduzir — tudo isso já é feito com qualidade crescente por modelos que ficam mais baratos a cada mês. Qualquer consultor que vende execução sem vender julgamento está competindo com ferramentas que nunca tiram férias e cobram fração do que ele cobra.

O que a IA ainda não consegue vender para o cliente é confiança de que as escolhas feitas são as escolhas certas para aquele contexto específico. Não a resposta mais provável. Não a média das preferências. A decisão que alguém com julgamento calibrado tomou depois de olhar para o problema com atenção, com memória de mercado e com perspectiva de fora.

Esse é o argumento comercial mais sólido disponível para profissionais criativos agora. Não “criatividade” no abstrato. Não “humanidade” como valor genérico. Gosto, no sentido específico que Siegler define: a capacidade de tomar a decisão certa em contextos onde a IA produz probabilidades e o cliente precisa de uma escolha.

E para onde vamos a partir de agora?

A pergunta que vai definir a próxima fase do trabalho criativo não é “a IA consegue fazer isso?”. Já consegue, ou vai conseguir em breve, para a maioria das tarefas de execução. A pergunta é: a IA consegue ser responsável pela decisão?

Consegue garantir que a escolha feita era a escolha certa para aquele cliente, aquela audiência, aquele momento de mercado? Por enquanto, não. E esse intervalo é o espaço onde consultores, estrategistas e criadores de conteúdo com bom julgamento têm uma vantagem defensável — desde que consigam articulá-la com precisão para os clientes que estão, agora mesmo, tentando entender quanto do orçamento de comunicação podem substituir por ferramentas.

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