Ontem fui dormir com uma estranha sensação de vazio criativo. Antes de apagar a luz, fui olhar as estatísticas das minhas muletas estocásticas, os mais nerds chamarão de logs. Me surpreendi: mais de 70 peças de conteúdo produzidas a partir de um pretenso modelo de curadoria acelerado por IA. Aura percebida nessas peças: próxima a zero.
Escrevi sobre isso numa Note rápida no Substack, ainda no final do dia anterior, com a imprecisão de quem ainda não organizou o pensamento mas já sabe que há algo importante ali. “Humanidade, essa contradição”, fechei. E fui dormir.
De manhã, o pensamento voltou mais nítido. O problema não era a ferramenta. Era o entendimento equivocado do que é ferramenta e do que é motivação do processo criativo. Eu havia construído um sistema eficiente. E havia confundido eficiência com presença.
A palavra que organizou tudo foi a de Walter Benjamin: aura. Aquela qualidade irredutível que pertence à obra no momento de sua origem, ao testemunho único de uma presença no tempo e no espaço.
Benjamin falava de arte e reprodução técnica em 1936, mas a questão que ele levantava ressoa de forma perturbadora num contexto que ele jamais poderia ter imaginado: o de uma produção de conteúdo industrializada, gerada em esteira, calibrada para performance e desprovida da imperfeição que é, paradoxalmente, a marca do que é humano.
Foi com esse peso que voltei a ouvir Jack Conte no SXSW 2026.
Conte é o CEO do Patreon, a plataforma que talvez mais tenha feito pela sustentabilidade econômica de criadores independentes na última década. Ele construiu uma infraestrutura para que artistas, podcasters, escritores e músicos pudessem sobreviver fora do ciclo de atenção das grandes plataformas. E agora está publicamente furioso com o que as empresas de inteligência artificial fizeram com o trabalho desses mesmos criadores.
A contradição é visível e vale ser encarada de frente. Conte não é um outsider do ecossistema tecnológico. É um insider com conflito de interesses: sua plataforma depende da prosperidade dos criadores, e os criadores estão sendo usados como matéria-prima de treinamento sem consentimento, sem crédito e sem compensação.
Quando ele sobe ao palco do SXSW para defender a classe criativa, ele está também defendendo o seu negócio. Isso não invalida o argumento, mas contextualiza a urgência com que ele fala.

O que Conte apresentou não foi um manifesto nem uma lista de demandas vagas. Foi um framework de três palavras que, pela sua simplicidade, corre o risco de ser subestimado: Consent, Credit, Compensation. Os 3 Cs.
A elegância do esquema é também sua fragilidade. Tudo que cabe num slide de apresentação pode ser absorvido, esvaziado e transformado em linguagem de relações públicas. Mas antes de chegar a esse ceticismo, vale entender o que cada um dos três termos realmente implica, especialmente no contexto brasileiro.
Consentimento, no framework de Conte, é o direito do criador de decidir se o seu trabalho pode ou não ser usado para treinar modelos de inteligência artificial. Parece elementar. No regime jurídico atual, não é.
O argumento que as empresas de AI repetem, com variações, é o de que o treinamento de modelos com dados publicamente disponíveis é coberto pelo conceito de fair use, originalmente desenvolvido no direito norte-americano para proteger usos transformativos de obras protegidas por copyright. Conte chamou esse argumento de “bogus”, e há razões técnicas e filosóficas para concordar com ele.
O fair use foi desenhado para situações em que uma obra é transformada, comentada, parodiada ou usada como referência crítica. O treinamento de um modelo de linguagem é uma operação diferente: o conteúdo é processado em escala industrial para gerar uma capacidade preditiva que depois é vendida como produto.
A transformação não é do conteúdo original, mas da capacidade do sistema. O original desaparece na saída, mas foi decisivo para construí-la. Isso é juridicamente nebuloso e filosoficamente problemático.
No Brasil, a Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/1998) não contempla explicitamente o uso de obras para treinamento de AI, e a regulação em tramitação ainda é incipiente. O que existe, por ora, é um vácuo legal que as empresas de tecnologia ocupam com velocidade e as instâncias regulatórias ocupam com lentidão.
Consent, portanto, não é ainda um direito. É uma reivindicação.
Crédito é o segundo C, e é onde o argumento de Conte deixa o terreno do direito e entra no da identidade.
Modelos de linguagem e de imagem aprendem estilos, vozes, abordagens e padrões a partir de obras de criadores identificáveis. Um modelo treinado com décadas de colunismo do Piauí produz textos que têm algo do Piauí. Um modelo treinado com a obra de um ilustrador específico pode replicar sua estética com precisão perturbadora. Isso não é copyright infringement no sentido técnico: o modelo não copia a obra, aprende com ela.
Mas há algo que o direito não nomeia bem e que Conte articula com clareza: a autoria como identidade. Quando o estilo de um criador é reproduzido sem referência à sua origem, acontece uma forma de apagamento que não é ilegal mas é moralmente significativa. O criador perde a capacidade de ser reconhecido pelo que construiu. A aura, de novo, desaparece.
No ecossistema de conteúdo profissional, isso tem implicações concretas. Agências que usam modelos treinados com o trabalho de redatores, fotógrafos e ilustradores sem nenhuma forma de atribuição estão, de certa forma, participando desse apagamento. Não intencionalmente, na maioria dos casos. Mas a intenção não é o único critério relevante aqui.
O terceiro C é o mais difícil e o mais interessante. Compensação implica mecanismo, e mecanismo implica precedente, e precedente implica disputa.
Conte estima que o valor econômico gerado pelos grandes modelos de linguagem foi construído, em parte significativa, sobre trabalho criativo não remunerado. Quantificar isso é metodologicamente complexo, mas a lógica básica é sólida: sem os dados de treinamento, não há modelo; sem o modelo, não há produto; sem o produto, não há receita. A cadeia é direta.
O que ainda não existe é um mecanismo de distribuição retroativa que seja tecnicamente viável e juridicamente sustentável. Algumas tentativas emergem no horizonte: licenciamentos coletivos, fundos de compensação setoriais, sistemas de rastreamento de proveniência de dados. Nenhum deles está operacional em escala.
No Brasil, essa discussão é ainda mais embrionária. O setor criativo nacional, já pressionado por estruturas de distribuição desfavoráveis e pela concentração de plataformas internacionais, enfrenta agora uma camada adicional de assimetria.
A pergunta prática para criadores e agências não é “como receber retroativamente” mas “como se posicionar agora, antes que os termos sejam definidos por quem tem mais poder de negociação”.
Frameworks são mapas, não territórios. Os 3 Cs nomeiam o problema com clareza, mas não oferecem a mecânica da solução. Consent sem opt-out técnico efetivo é declaração de intenção. Credit sem sistema de rastreamento é boa vontade. Compensation sem precedente jurídico é aspiração.
O valor do framework de Conte está em criar linguagem compartilhada num debate que as empresas de tecnologia têm interesse em manter obscuro. Nomear é o primeiro movimento político de qualquer disputa por direitos. Os 3 Cs fazem isso com economia e memorabilidade.
O segundo movimento é a organização. E aí o trabalho ainda está por começar.
Enquanto isso, eu continuo produzindo conteúdo com ferramentas de inteligência artificial. Aprendi a usá-las de outro modo: não como esteira, mas como interlocução. A diferença não está na ferramenta, mas na presença que eu trago para o processo. A aura, descobri, não está no objeto nem no sistema. Está na escolha de não terceirizar o ponto de vista.
Conte está furioso e fascinado. Eu também.
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