menu Menu

O que jovens americanos que largaram o celular descobriram sobre todos nós

E o que isso tem a dizer sobre o modo como produzimos, consumimos e existimos online

E o que isso tem a dizer sobre o modo como produzimos, consumimos e existimos online

Quando jovens começam a quebrar os próprios feeds, o argumento que sempre pareceu filosófico se torna urgentemente prático.

A história que a imprensa contou é simples: universitários americanos estão criando clubes para usar menos o celular. Preferem celulares básicos, encontros presenciais, leituras em papel. O New York Times fez uma matéria — e depois outra. A Fast Company Brasil repercutiu. O movimento ganhou um nome antigo emprestado de um contexto muito diferente: luddismo.

Os fatos estão certos, mas a leitura que se faz deles fica aquém do que está acontecendo. Esses jovens não são nostálgicos nem ingênuos. Estão respondendo, com os instrumentos que têm, a uma pressão estrutural que a maioria dos adultos ao redor deles ainda não conseguiu nomear direito.

Essa pressão é a economia da atenção, e o que esses estudantes perceberam, de forma intuitiva e talvez sem a terminologia acadêmica, é que estavam cedendo o recurso mais escasso que possuem, sem consentimento, sem crédito e sem compensação. A frase é de Jack Conte, CEO do Patreon, falando sobre criadores de conteúdo e inteligência artificial no SXSW 2026. Mas ela se encaixa com precisão perturbadora num contexto que ele não estava descrevendo.

Estamos diante do mesmo problema em escalas diferentes.

Os ludistas originais não eram antitech por princípio. Esse é o equívoco que o nome carrega e que a cobertura jornalística raramente corrige. Os operários britânicos que quebravam máquinas têxteis no início do século XIX protestavam contra as condições que a industrialização impunha: salários corroídos, empregos destruídos, dignidade confiscada em nome do progresso de outros. A máquina era o símbolo do problema, não o problema em si. O alvo real era o modelo econômico que a máquina servia.

Os neo-ludistas de 2026 operam dentro de uma lógica estruturalmente parecida. Não rejeitam a tecnologia como tal. Rejeitam o modelo de negócio que a tecnologia das plataformas incorpora: a captura contínua da atenção humana como matéria-prima para um mercado publicitário que eles nunca escolheram abastecer. Quando um estudante universitário em Nova York decide largar o Instagram e voltar a se encontrar presencialmente com amigos, não está fazendo uma declaração de fé na era analógica. Está recusando os termos de um contrato que nunca foi explicitado.

É uma decisão política disfarçada de estilo de vida.

Escrevi recentemente sobre uma crise parecida, mas vivida de dentro. Em A aura que falta, tentei descrever o estranhamento de olhar para um volume considerável de conteúdo produzido com auxílio de IA e perceber que havia eficiência sem presença. Peças tecnicamente corretas, bem estruturadas, calibradas para performance. E, ainda assim, algo ausente

A palavra que organizou o pensamento foi de Walter Benjamin: aura. Aquela qualidade irredutível que pertence à obra no momento de sua origem, ao testemunho único de uma presença no tempo e no espaço. Benjamin escreveu sobre isso em 1936, no contexto da reprodução técnica de obras de arte. O que ele não poderia ter previsto era a escala e a velocidade com que a lógica da reprodução se tornaria não apenas um modo de distribuir arte, mas um modo de produzir atenção, identidade e experiência cotidiana.

Os jovens ludistas estão fazendo pela própria vida o que eu tentei fazer pela minha prática criativa: reconhecer que a presença tem um custo e que ceder essa presença sem critério é uma forma de empobrecimento que os indicadores de engajamento não conseguem medir.

Benjamin descreveu esse mecanismo para a arte. Eu tentei descrevê-lo, num ensaio recente, para a produção de conteúdo. Esses estudantes estão vivendo a mesma erosão numa escala que Benjamin não teria como imaginar: a da própria existência cotidiana. Quando um sistema se torna eficiente o bastante para capturar, processar e reproduzir algo que antes era singular, o que se perde não aparece em nenhum relatório. Mas a ausência se instala. E quando você a percebe, é difícil voltar a ignorar.

O neo-luddismo como movimento organizado ainda é marginal, concentrado em algumas universidades americanas, protagonizado por jovens com capital cultural suficiente para transformar a restrição tecnológica em identidade. A maioria das pessoas que “reduz o tempo de tela” não faz parte de nenhum movimento.

E a maioria das pessoas que deveria reduzir o tempo de tela não tem condições econômicas ou sociais de fazê-lo: universidades exigem autenticação digital, aplicativos de transporte são infraestrutura urbana, relacionamentos passam pelo ambiente online.

A crítica é legítima. O neo-luddismo, como quase toda forma de resistência ao capitalismo de plataforma que existe hoje, é um privilégio. Você precisa de certas condições para poder optar por sair.

Mas a validade da crítica não invalida o diagnóstico. O fato de que a saída é difícil ou impossível para muitos não significa que o problema que motiva a saída seja irrelevante. Significa que o problema é mais grave do que parece quando observado apenas pelos casos de quem conseguiu resolver individualmente.

A tensão que os neo-ludistas tornam visível existe independentemente do movimento. A diferença é que o movimento a nomeia e a torna legível. E nomear, como toda pessoa que já tentou articular algo difuso sabe, é o primeiro movimento político de qualquer disputa por condições.

O que esse sinal oferece para quem produz conteúdo profissionalmente não é um manual de sobrevivência. É um espelho.

Se os mais jovens, que cresceram nativos no ambiente digital e deveriam ser os mais adaptados aos seus ritmos, estão chegando ao limite da saturação, isso não é um problema deles. É um sinal sobre a qualidade do que estamos produzindo e sobre como estamos produzindo. Um feed que exaure quem o consome está sendo alimentado por uma cadeia produtiva que, em algum ponto, também exaure quem o cria. A crise da atenção no consumo e a crise da presença na produção são faces do mesmo problema.

Jack Conte pediu consentimento, crédito e compensação para criadores cujo trabalho alimentou os grandes modelos de inteligência artificial. Os jovens ludistas estão pedindo o equivalente para si mesmos: o direito de decidir quanto da sua atenção ceder, a quem e em que condições. A reivindicação é análoga, e a assimetria de poder que a sustenta, a mesma.

A diferença é que os criadores profissionais ainda estão, em grande parte, tentando otimizar a presença dentro do sistema. Os jovens ludistas decidiram questionar os termos do sistema antes de otimizar qualquer coisa dentro dele.

Talvez os criadores profissionais encontrem um caminho viável dentro do sistema. Talvez os jovens ludistas descubram que a recusa total é insustentável a longo prazo. Mas a ordem das perguntas importa. Antes de decidir como otimizar a presença num feed, vale perguntar se os termos daquele feed merecem essa presença.

Os estudantes que trocaram o grupo de WhatsApp por uma mesa de bar numa quarta-feira à noite já fizeram essa conta. O resto de nós ainda está decidindo se quer olhar o saldo.


Quer ler mais sobre o tema? Minha dica é assinar essa seção por e-mail

aura economia da atenção neo-luddismo produção de conteúdo redes sociais tecnologia Walter Benjamin


Previous Next

Leave a Reply

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

keyboard_arrow_up