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Quando a serpente morde o próprio rabo em um Ouroboros midiático
O caso da Palantir e a contradição que define o capitalismo de vigilância
By Mauro Amaral Posted in Radar on 19/02/2026 0 Comments
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Como uma empresa que lucra com deportações admitiu, sem querer, que sua sobrevivência depende exatamente das pessoas que ajuda a expulsar

Existe um símbolo antigo que os alquimistas chamavam de ouroboros: a serpente que devora a própria cauda. É uma imagem sobre ciclos, sobre sistemas que se alimentam de si mesmos até que não sobre mais nada para consumir. Pensei nesse símbolo quando li, no relatório anual da Palantir à Securities and Exchange Commission (SEC), uma passagem que merece ser lida com a mesma atenção que dedicamos a um texto literário, porque é, à sua maneira, uma obra de ficção involuntária.

A empresa escreveu, em linguagem de compliance destinada a investidores, que “se não formos capazes de recrutar, contratar ou reter o talento que precisamos devido ao aumento da regulamentação da imigração ou vistos de trabalho, incluindo limitações no número de vistos concedidos, mudanças nos processos de aplicação ou taxas, limitações no tipo de trabalho realizado ou local onde o trabalho pode ser executado, e novos ou mais altos requisitos de salário mínimo, pode ser mais difícil alocar nosso pessoal em compromissos com clientes e pode aumentar nossos custos.”

Uma frase burocrática, dessas que existem para não dizer nada. Mas que diz tudo. Porque a Palantir não é qualquer empresa de tecnologia preocupada com vistos H-1B. A Palantir é a empresa que construiu o ELITE.

Um nome que já é um ensaio sobre poder

ELITE é um acrônimo para Enhanced Leads Identification & Targeting for Enforcement. Em português: Identificação e Direcionamento Aprimorado de Alvos para Fiscalização. Note a linguagem. “Alvos.” “Direcionamento.” “Fiscalização.” Não são pessoas, no vocabulário do sistema. São leads. São pontuações de confiança sobre endereços.

São dossiês construídos a partir de dados cruzados de múltiplas agências governamentais, incluindo o Departamento de Saúde e Serviços Humanos, o que significa que informações fornecidas em contextos de vulnerabilidade médica alimentam um sistema de caça.

O jornalista Joseph Cox, da 404 Media, revelou como o ELITE funciona na prática: um mapa digital onde cada ponto é uma pessoa. Clique no ponto e aparece um dossiê completo. Uma “pontuação de confiança” sobre o endereço atual. Documentos internos da ICE, registros públicos de aquisição e depoimento sob juramento de um oficial da agência confirmaram que o sistema direciona batidas policiais em bairros específicos, coordenadas com precisão algorítmica.

Sempre houve algo perturbador em transformar seres humanos em dados clicáveis. Mas há algo ainda mais perturbador no que a própria Palantir escreveu numa wiki interna vazada: que “haverá falhas” nas operações de remoção. A palavra “falhas”, nesse contexto, é um eufemismo para Kilmar Abrego Garcia, deportado por engano para El Salvador, e para centenas de outras pessoas cujas histórias não cabem no vocabulário asséptico de um relatório técnico.

A confissão involuntária

Voltemos ao documento da SEC. A Palantir lista como fator de risco para seus negócios o endurecimento das políticas migratórias. A mesma empresa que fornece a infraestrutura tecnológica para deportações em massa reconhece, preto no branco, que precisa de imigrantes para funcionar.

Isso não é hipocrisia no sentido comum da palavra. Hipocrisia pressupõe consciência da contradição e uma escolha deliberada de ignorá-la. O que a Palantir faz é algo mais revelador: é a expressão involuntária de uma lógica sistêmica. O capitalismo de vigilância funciona exatamente assim. Ele constrói as ferramentas que destroem as condições de sua própria existência, e documenta o processo em formulários 10-K para que investidores possam precificar o risco.

George Orwell escreveu que a linguagem política é desenhada para fazer mentiras soarem verdadeiras e o assassinato parecer respeitável. O relatório da Palantir à SEC faz algo parecido, mas ao contrário: usando a linguagem técnica do risco corporativo, a empresa acidentalmente diz a verdade. Precisa de imigrantes. Lucra deportando imigrantes. As duas frases coexistem no mesmo documento, separadas por algumas páginas, sem que ninguém aparentemente tenha notado a contradição.

O documento continua: “Além disso, leis e regulamentações, como leis restritivas de imigração, podem limitar nossa capacidade de recrutar fora dos Estados Unidos. Buscamos reter e motivar o pessoal existente por meio de nossas práticas de compensação, cultura da empresa e oportunidades de desenvolvimento de carreira. Se não conseguirmos atrair novos funcionários ou reter nosso pessoal atual, nossos negócios e operações poderão ser prejudicados.”

Deslegalização: quando o sistema reescreve as regras no meio do jogo

A administração Trump não se limitou a endurecer regras para novos imigrantes. Inventou um verbo novo para o vocabulário político: “deslegalizar”. Pessoas que estavam nos Estados Unidos legalmente tiveram seus status revogados. Imigrantes que compareceram a audiências judiciais seguindo rigorosamente o processo legal foram detidos e deportados. O processamento de vistos de vários países foi suspenso.

Há uma crueldade específica em mudar as regras retroativamente. É como se o tabuleiro de xadrez fosse redesenhado depois que as peças já foram movidas. E a tecnologia da Palantir é o que torna esse redesenho possível em escala. Sem o ELITE, sem os algoritmos de cruzamento de dados, sem as pontuações de confiança, a operação de deportação em massa seria logisticamente inviável. A tecnologia não é o autor da política. Mas é a condição de sua execução.

O silêncio como linguagem

Quando a 404 Media procurou a Palantir para comentar a contradição, a empresa não respondeu. É tentador interpretar esse silêncio como vergonha ou embaraço, mas provavelmente é algo mais simples: não existe resposta possível. A contradição não é um bug do sistema. É o sistema funcionando como projetado.

O Vale do Silício construiu toda uma mitologia sobre si mesmo: inovação, disrupção, meritocracia, diversidade. Esses valores são sinceramente proclamados em manifestos de cultura corporativa, em páginas de carreiras, em keynotes de conferências. E sinceramente ignorados quando contratos governamentais de centenas de milhões de dólares estão em jogo.

O que o ouroboros nos ensina?

A Palantir não é um caso isolado. É um caso exemplar. A contradição entre depender de imigrantes e lucrar com sua deportação é apenas a versão mais visível de uma tensão que atravessa toda a economia tecnológica: empresas que proclamam valores humanistas enquanto constroem ferramentas que tratam humanos como dados.

O que torna o caso da Palantir literariamente perfeito é a confissão involuntária. Em um formulário obrigatório da SEC, em linguagem de compliance, a empresa escreveu a verdade que nenhum comunicado de imprensa jamais admitiria: que a imigração não é uma ameaça, mas a força vital da inovação americana. Que cada restrição migratória reduz o pool de talentos. Que cada deportação, potencialmente, remove alguém que poderia estar escrevendo código para a próxima geração de produtos da Palantir.

A serpente morde a própria cauda. E continua mordendo.

Referências:

  • Cox, Joseph. (2026). “Palantir, Which Is Powering ICE, Says Immigration Crackdown May Hurt Hiring.” 404 Media. Disponível em: 404 Media
  • Relatório 10-K da Palantir à SEC. Disponível em: SEC EDGAR
  • Informações sobre o sistema H-1B. Disponível em: USCIS

ICE Palantir Vigilancia


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