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Inteligência artificial na universidade: o que isso revela
Não é a inteligência artificial que vai destruir o ensino superior. É o ensino superior que aparece, finalmente, sem o disfarce que sempre o sustentou.
By Mauro Amaral Posted in Artigos on 21/05/2026 0 Comments
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Em doze anos, a percepção de que um diploma universitário é “muito importante” caiu de 74% para 35% entre jovens americanos. A inteligência artificial na universidade não causou esse colapso. Acelerou a percepção de que o custo do acordo simbólico está alto demais para o que ele entrega.

Há uma cena recorrente em conversas com fundadores de startups, CEOs e diretores de marketing nos últimos meses. Alguém abre um pitch deck, mostra o slide de currículo do time, lista os MBAs, os mestrados, as graduações em universidades de prestígio.

Depois ri da própria piada e diz que na próxima rodada de contratação vai olhar mais portfólio do que diploma. A frase já saiu, já ouvi, ela vira quase como um encantamento para pessoas que cresceram acreditando que o ensino superior era um pacto inviolável entre esforço pessoal e mobilidade social.

Jay Caspian Kang, jornalista e escritor, abre essa fenda com precisão na primeira parte de uma série da New Yorker sobre a viabilidade do sistema universitário americano. O texto começa numa cena doméstica: o autor olha para o fundo de educação dos filhos e calcula se o dinheiro guardado para uma graduação daqui a nove anos não seria melhor empregado em outra coisa.

A pergunta parece individual. Kang a transforma em diagnóstico institucional. A IA, segundo ele, não vai destruir sozinha a universidade americana. Vai acelerar uma desilusão que já estava em curso.

De 74% para 35% em doze anos: o dado do Gallup que mede a velocidade de colapso da confiança no diploma universitário

Os números que Kang mobiliza ajudam a dimensionar a velocidade da queda. Em 2013, segundo o Gallup, 74% dos americanos entre 18 e 34 anos diziam que uma educação superior era muito importante. Em 2019, antes do ChatGPT virar produto de consumo, o número já tinha caído para 43%. Em 2025, chegou a 35%.

A faixa etária com o tombo mais íngreme entre todas as pesquisadas. Uma pesquisa Pew complementa o quadro: sete em cada dez americanos afirmam que o sistema de ensino superior está indo na direção errada, em boa medida por causa do custo. Quarenta por cento dos formados entre 22 e 27 anos ocupam vagas que não exigem diploma.

📊 O dado em perspectiva: 74% → 43% → 35%: a queda acumulada entre 2013 e 2025 entre jovens americanos que consideram o diploma universitário “muito importante”. Mais da metade da legitimidade percebida evaporou em doze anos, com a maior aceleração registrada no período pós-pandemia.

O diploma como certificado de conformidade: por que a universidade nunca foi, em essência, sobre transmitir conhecimento

Kang costura essas estatísticas com uma tese velha de Bryan Caplan, professor de economia na George Mason. Caplan argumenta há anos que a universidade não existe primariamente para ensinar. Existe para certificar.

O diploma é um carimbo de empregabilidade que sinaliza inteligência, ética de trabalho e capacidade de conformar-se a regras burocráticas. Quem paga não está comprando conhecimento. Está comprando o direito de ser reconhecido como contratável.

Quando essa hipótese atravessa o argumento de Kang, a discussão muda de natureza. A IA não está concorrendo com a universidade no terreno do conhecimento. Está deslocando o terreno onde o conhecimento certificado fazia diferença.

O que a IA faz com o monopólio do conhecimento certificado: revelação, não destruição do ensino superior

O que mais me interessa não está no susto sobre o futuro do diploma. Está na percepção de que a IA opera como revelador. Ela mostra com nitidez o que a universidade sempre foi e o que ela escondia melhor quando o monopólio da informação era mais firme.

Antes, era difícil saber se você estava pagando pelo saber ou pela cerimônia que organizava o saber. Agora, com um modelo de linguagem capaz de explicar cálculo diferencial em quatro parágrafos cuidadosos e gratuitos, o pacto fica exposto.

A diferença entre uma boa aula e o Claude não é o conteúdo. É a presença do corpo discente da Ivy League ao redor e o que esse corpo simboliza para um futuro recrutador.

Há um segundo eixo no argumento, que Kang não desenvolve mas que precisa ser dito. Se o diploma é certificado de conformidade, a confiança que ele organizava está vazando. Não vaza apenas das universidades.

Vaza dos escritórios de advocacia que faziam o caminho natural depois do Direito em uma top tier. Vaza das consultorias que organizavam a passagem de Harvard para McKinsey. Vaza dos veículos de prestígio que entregavam carreira para quem tinha o diploma certo.

A própria New Yorker, onde Kang publica, é um exemplo do problema que descreve. Entrar na imprensa de prestígio ainda exige credencial. Mas o desejo de entrar nunca foi tão baixo.

Um adolescente ambicioso que queira fazer jornalismo hoje pode escolher entre se matar para chegar em Harvard ou abrir uma conta no Substack e começar a trabalhar. Os dois caminhos são imperfeitos. O segundo está mais barato.

Para onde migra a confiança quando o diploma perde valor simbólico: portfólio público, comunidade vertical e autoridade editorial acumulada

A pergunta central que essa erosão deixa em aberto: quando o diploma para de funcionar como certificado suficiente, para onde migra a confiança?

A resposta provisória é que ela migra para territórios próprios. Para o portfólio público bem indexado. Para a comunidade vertical onde a expertise circula entre pares. Para canais autorais onde uma assinatura individual ainda significa alguma coisa e carrega história de entrega.

A confiança não evapora. Ela troca de endereço e de cerimônia.

Esse deslocamento tem uma consequência operacional para quem produz conteúdo. A operação editorial autoral, organizada em hubs temáticos e bem indexada, vira o equivalente funcional do diploma para várias profissões criativas.

Construir repertório público, sustentar uma voz reconhecível ao longo de meses e anos, manter um corpo de obra navegável é hoje uma forma legítima de auto-credenciamento. O hub de conteúdo não é blog. É infraestrutura de autoridade.

Para quem trabalha em marketing, estratégia, design, código, jornalismo, a presença editorial bem feita opera como currículo vivo. E como em qualquer credencial, há trabalho duro, custo de oportunidade e curva de paciência.

💡 Leia esse aqui também: A aura que falta: o que Jack Conte chamou de Consent, Credit, Compensation e o que isso muda para criadores, a mesma lógica do auto-credenciamento aplicada à prática editorial cotidiana.

Vale registrar também a armadilha simétrica que o argumento esconde. Kang usa a imagem dos gutters, aquelas calhas do boliche, os canais que capturam a bola quando ela sai da pista.

No contexto dele, gutter é o conjunto de restrições invisíveis que delimita o que um sistema de informação consegue produzir: os vieses estruturais, os temas que não entram, os pontos de vista que o sistema simplesmente não alcança.

Todo mediador de conhecimento tem os seus. Os modelos de IA têm seus gutters definidos pelas empresas que os treinam e pelas escolhas editoriais embutidas no processo. As universidades têm os seus definidos por décadas de tradição acadêmica, por quem ocupa cadeiras e por quais perguntas os congressos científicos consideram legítimas.

Assim, trocar um gutter pelo outro não é libertação. É realocação. O critério para decidir qual é mais tolerável precisa ser estético, ético e político, não apenas econômico.

Caplan, defensor entusiasta do desmonte da universidade, é também um defensor de leituras de mundo bastante específicas. Sam Altman tem as suas próprias preferências sobre o que merece circular. A escolha não é entre ter ou não ter mediador. É entre quais mediadores você aceita como interlocutores e com quais consegue manter distância crítica.

Por que as universidades de elite sobrevivem enquanto centenas de faculdades privadas desaparecem

O cenário que Kang projeta é familiar para quem acompanhou a consolidação de outras indústrias. Um efeito winner-takes-all (o vencedor leva tudo, em tradução livre) entre as grandes universidades de elite, sobrevivência por capital simbólico acumulado, desaparecimento gradual de centenas de pequenas faculdades privadas que não conseguem sustentar a equação econômica.

O número de americanos que cursam quatro anos de graduação tende a cair. O ensino superior se concentra em poucos campi e em muitos aplicativos.

Quem permanece dentro do sistema antigo passa a ser, com mais clareza do que hoje, o filho da classe que confia em instituições e que pode pagar pela versão pessoalmente ineficiente, porém socialmente rentável, da credencial.

⚠️ O paradoxo da sobrevivência: As mesmas universidades que mais se beneficiam do credencialismo são as que têm menos incentivo para mudá-lo. Harvard e Stanford sobrevivem porque a credencial delas ainda funciona no mercado de trabalho das elites. O problema não é o topo da pirâmide. É o que acontece com os 80% que não chegam lá.

O que esse mapa americano muda para profissionais criativos e estratégicos no Brasil

No Brasil, a transposição não é literal. O ensino superior público de elite ainda não enfrentou uma onda comparável de descrédito. As universidades corporativas e os MBAs caros vivem ciclo próprio. O sistema de cotas, o ensino a distância de massa e a fragmentação do ensino privado de baixo custo desenham um mapa diferente.

Mas o vetor é o mesmo. A confiança nas credenciais formais está pressionada, e a IA acelera a percepção do custo de comprá-las.

Para quem trabalha com produção intelectual, criação e estratégia, a equação exige dois movimentos combinados: continuar levando a sério a formação clássica onde ela ainda funciona, e investir em paralelo em infraestrutura de autoria pública que opere como segunda credencial.

Não como substituto do diploma. Como evidência viva de competência, julgamento e voz. O que o mercado cada vez mais quer não é a promessa do diploma. É a prova do trabalho.

Volto à cena do começo. O fundador que ri do próprio MBA, o diretor de marketing que confia mais em portfólio do que em diploma, a mãe que se pergunta se vale a pena alimentar o fundo de faculdade dos filhos. Nenhum deles está fazendo discurso. Estão fazendo cálculo.

E é nesse cálculo, distribuído em milhões de famílias e mesas de reunião, que se decide o futuro de uma das instituições mais sólidas do século XX.

Kang quer saber se a universidade sobrevive. A pergunta mais produtiva talvez seja outra. Em que termos a universidade sobrevive. Para quem ela sobrevive. E o que constrói, no terreno aberto que sobra, quem não vai mais entrar nela.


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