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Quando gênios usam IA: a fase da têmpera

O que o desconforto de ver ídolos usando IA revela sobre quem olha e o que pode estar acontecendo com eles

O que o desconforto de ver ídolos usando IA revela sobre quem olha e o que pode estar acontecendo com eles

Quando artistas como Bob Dylan usam IA, parece rendição. Pode ser a fase da têmpera, gênios criativos aprendem o material antes de transcendê-lo.

Em 1466, um menino de quatorze anos entrou pela primeira vez no ateliê de Andrea del Verrocchio em Florença. O ateliê ficava perto do Palazzo Vecchio e era um dos mais importantes da cidade: escultura, pintura, ourivesaria, cenografia para festividades públicas. Verrocchio era escultor principal dos Médici e mantinha um programa de formação que começava pelo chão, no sentido quase literal. Os aprendizes aprendiam a moer pigmentos, a preparar as superfícies das tábuas com várias camadas de gesso, a emulsionar a gema de ovo que servia de aglutinante para a têmpera usada no ateliê.

O menino que entrou naquele dia era Leonardo da Vinci.

Walter Isaacson, em sua biografia de Leonardo, descreve o programa de Verrocchio como rigoroso e sistemático: anatomia de superfície, mecânica, técnicas de desenho, estudo dos efeitos de luz e sombra sobre tecidos e drapagens. Antes de qualquer um disso, havia o trabalho preparatório dos materiais. A têmpera de gema de ovo exige paciência e precisão: a quantidade de pigmento, a proporção da emulsão, o tempo de secagem entre as camadas. É um trabalho sem glamour que governa a qualidade de tudo que vem depois.

Não há registro de que Leonardo tenha achado essa fase indigna do seu talento. Há registros de que ele ficou no ateliê de Verrocchio por mais de uma década, muito além do tempo convencional de aprendizado, porque havia algo naquele ambiente que continuava produzindo.

Lembro dessa imagem cada vez que a conversa sobre inteligência artificial e gênios criativos volta à superfície. E ela volta com frequência.

O desconforto específico

O desconforto que sentimos quando artistas consagrados usam inteligência artificial não é sobre tecnologia. É sobre a perda de um critério de valor.

Não é difícil entender a reação. Bob Dylan publicando vídeos gerados por IA no Patreon. Darren Aronofsky argumentando que a IA é só mais uma ferramenta, como o som, a cor, os efeitos visuais. Paul Schrader testando geração de texto. David Lynch demonstrando curiosidade aberta pelo que os modelos podem fazer.

A resposta de quem acompanha esses artistas há décadas não é indiferença. É algo mais próximo do luto: a sensação de que o que você admirava neles, o risco, a singularidade, a recusa em fazer o fácil, foi trocado por exatamente o que eles nunca teriam aceito antes.

Essa leitura não é irracional. Parte dela pode estar certa. Alguns artistas envelhecem e param de se incomodar com o que produzem. Alguns encontram na tecnologia uma forma de continuar gerando sem o custo do esforço que a qualidade exige. Isso acontece, e acontece com mais frequência do que gostamos de admitir sobre os nossos ídolos.

Mas existe outra leitura disponível. E ela exige que a gente separe o momento do veredicto.

O que o slop phase não é

Jack Conte, CEO do Patreon, usou uma expressão precisa durante o SXSW de 2026 para descrever o estágio atual da IA generativa: slop phase. O período pós-introdução de um novo meio em que ele é usado para replicar o que já existe, antes que alguém descubra o que ele pode fazer que o meio anterior não conseguia.

Conte listou os precedentes históricos com clareza. A fotografia, quando surgiu, passou décadas tentando imitar a pintura. Os primeiros fotógrafos posicionavam seus modelos como se fossem pinturas renascentistas, manipulavam as imagens para parecerem telas, pediam desculpas implícitas por não serem o que a pintura era. O que a fotografia fazia de único, a captura do instante, o acaso congelado, a democratização do retrato, levou tempo para ser reconhecido e explorado.

O cinema dos primeiros anos era teatro filmado. Os cortes eram inexistentes ou mecânicos. A câmera ficava parada como uma plateia de frente para um palco. Griffith, Eisenstein e Murnau levaram anos para descobrir que o cinema tinha uma linguagem própria que não devia nada ao teatro.

A música digital começou como MIDI tentando soar como orquestra. Levou uma geração inteira para que produtores como J Dilla e Flying Lotus entendessem que o erro do quantizador, o sample levemente fora do tempo, eram características musicais únicas do meio, não falhas a serem corrigidas.

Cada novo meio passa por uma fase em que é usado para imitar o anterior. Isso não é fraqueza do meio. É o tempo que os artistas precisam para entender o que ele pode fazer que nenhum outro consegue.

O slop phase não é o fracasso do meio. É o aprendizado do meio.

📖 Leia também: A aura que falta — Jack Conte no SXSW 2026: o que a aceleração corrói e por que qualidade irredutível ainda importa

A questão que a têmpera ilumina

A metáfora da têmpera revela por que domínio técnico e fase exploratória são inseparáveis — e por que o aprendizado de um mestre parece, por fora, indistinguível do abandono.

Volto a Leonardo não por acaso ou por gosto de exemplos clássicos. Volto porque há algo estrutural na imagem que resiste ao tempo.

Um menino com capacidades que iriam redefinir a pintura, a anatomia, a engenharia e a óptica começou pela tarefa mais básica do ofício. Não porque Verrocchio não reconhecia o talento extraordinário do aprendiz, mas porque o domínio de um meio começa pela compreensão de suas propriedades materiais. Você não transcende aquilo que não entende por dentro.

A têmpera de gema de ovo seca de forma diferente do óleo. A maneira como o pigmento se comporta num suporte preparado com várias camadas de gesso é diferente de como se comporta sobre madeira crua. Essas diferenças não são detalhes técnicos para especialistas. São a base sobre a qual qualquer escolha expressiva posterior se apoia ou se dissolve.

O que me parece estar acontecendo com artistas como Dylan, Aronofsky ou Lynch não é necessariamente a rendição que parece. Pode ser a fase da têmpera. Pode ser o momento em que um criador com décadas de domínio sobre suas ferramentas habituais começa a entender, pelo contato direto, o que esse novo meio pode e não pode fazer.

Esse processo, do lado de fora, tem toda a aparência do slop. Porque é o slop phase, no sentido de Conte. Mas o slop phase de um mestre em aprendizado não é o mesmo que o slop phase de alguém que simplesmente parou de se importar.

Como distinguir os dois

A diferença não está no resultado imediato. Está no que vem depois.

A fase exploratória de um artista com repertório acumulado tende a produzir, eventualmente, uma síntese que só aquele artista poderia fazer: algo que usa as capacidades do novo meio de uma forma que carrega a marca inconfundível de uma sensibilidade formada por décadas de escolhas. Isso pode demorar. E pode parecer medíocre enquanto está acontecendo.

A fase de alguém que desistiu, ao contrário, tende a se estabilizar num produto de qualidade consistente e baixa. Não há síntese emergindo. Há volume sem direção.

O problema é que, do lado de fora, os dois têm a mesma aparência durante o processo. E nós, como público, temos uma tolerância muito baixa para o período intermediário de qualquer gênio que admiramos. Queremos que o trabalho deles seja sempre o resultado final, nunca o rascunho, nunca a têmpera.

Isso não é uma crítica à audiência. É uma observação sobre o que o modelo de atenção pública faz com o tempo de aprendizado. Artistas que trabalham no silêncio de um ateliê têm o privilégio de preparar a têmpera sem que ninguém esteja olhando. Artistas que operam em espaços públicos, como Patreon, redes sociais e declarações em conferências, não têm essa proteção. Cada gesto do aprendizado é lido como um manifesto.

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O que a recusa antecipada custa

Existe um custo real em decretar precocemente que um artista acabou. O custo não é sentimental. É epistêmico.

Quando decidimos que a exploração de Dylan com IA é o capítulo final da história, e não um capítulo intermediário, fechamos a possibilidade de ler o que vem depois. E os casos históricos sugerem que o que vem depois de um gênio passar pela fase do slop com um novo meio tende a ser surpreendente, especialmente porque carrega décadas de sensibilidade formada em outros meios.

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O argumento de Aronofsky, comparando IA com a chegada do som, da cor e dos efeitos visuais no cinema, está incompleto. Mas não está errado. Cada uma dessas tecnologias passou por uma fase em que foi usada de forma descuidada, decorativa ou mimética. E cada uma delas foi depois resignificada por diretores que entenderam o que ela podia fazer que o cinema anterior não conseguia. A cor de Powell e Pressburger em Narciso Negro não é decoração. É linguagem. Levou tempo para chegar lá.

O que Aronofsky não diz, talvez porque ainda não sabe, é o que a IA vai permitir que ele faça que nenhuma ferramenta anterior permitia. Mas a probabilidade de que ele descubra aumenta enquanto ele continua explorando. E diminui se ele parar porque a audiência ficou desconfortável com a fase intermediária.

Não é o gênio que precisa de paciência aqui. É a audiência.

A têmpera e o que vem depois

A diferença entre artistas que desistiram e artistas que preparam a têmpera só se torna visível com o tempo — e exige que a audiência esteja presente para ver.

A imagem de Leonardo preparando a têmpera no ateliê de Verrocchio não é uma metáfora sobre humildade ou resignação diante da tarefa ingrata. É uma metáfora sobre a relação entre domínio técnico e expressão criativa. Você precisa conhecer o material para saber o que pode fazer com ele. E conhecer o material, na fase inicial, parece exatamente igual a não saber o que está fazendo.

O luto cultural que sentimos quando ídolos usam IA de forma que parece medíocre é real. Mas pode estar confundindo dois fenômenos distintos: artistas que desistiram e artistas que estão preparando a têmpera.

A diferença, como sempre, só se torna visível com o tempo. E o tempo exige que a gente esteja presente para ver.

O menino de quatorze anos que moeu pigmentos em Florença pintaria, alguns anos depois, um anjo no canto inferior esquerdo do Batismo de Cristo de Verrocchio. Segundo o relato de Vasari, ao ver o ângulo pintado pelo aprendiz, o mestre resolveu nunca mais pegar um pincel. Não porque estava derrotado. Porque entendeu que o processo havia chegado onde precisava chegar.

Nenhum dos dois sabia, quando o pigmento estava sendo moído, que era isso que estava sendo construído.


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