Tem um momento, no início dos anos 2010, em que toda foto de Instagram parecia a mesma foto. Brunch em mármore, café com latte art, planta lateral, luz norte. Não era falta de imaginação dos fotógrafos. Era a escola Kinfolk se infiltrando, plataforma a plataforma, até virar o jeito padrão de mostrar que você tinha bom gosto.
Aquilo foi um ensaio. O que está acontecendo agora é o filme inteiro.
Quando o ChatGPT começou a gerar imagens, depois quando o Midjourney refinou o realismo, depois quando o Gemini empacotou tudo isso num botão, o que mudou não foi a quantidade de imagens bonitas no mundo. Foi o custo marginal delas.
Imagem polida virou um clique. Tipografia premium virou um prompt. Layout moderno virou um preset. E a estética que antes funcionava como sinal de competência, aquela coisa quase litúrgica de mostrar que você tinha pago um designer bom, virou ruído indistinguível.
Kyle Chayka, no New Yorker (autor de Filterworld: How Algorithms Flattened Culture), batiza essa camada pelo nome que melhor captura o fenômeno: tasteslop, um termo cunhado pela consultora de tendências Emily Segal. Bom gosto industrializado, verniz uniforme. Uma capa Picador genérica, uma identidade de startup genérica, uma campanha de moda genérica, todas com a mesma cara de coisa bem resolvida, todas dizendo a mesma coisa por baixo: alguém pagou pelo pacote certo de prompts.
Diante disso, começa a aparecer uma reação que parece, de longe, contraintuitiva. Gente piorando a estética de propósito. Funciona como posicionamento, não como regressão.
Vale prestar atenção em quem está fazendo isso, porque não são amadores tentando parecer profissionais. É exatamente o oposto.
Richard Turley, designer que reconfigurou a linguagem visual da Bloomberg Businessweek nos anos 2010, assinou recentemente, em colaboração com a Travel Agency, uma campanha da Guess em que o logo aparece riscado por cima de uma selfie granulada, em amarelo ácido, com tipografia em caixa baixa e composição que parece feita às pressas no Photoshop por alguém de quinze anos.
Zack Cohn, cofundador da Travel Agency, conta em entrevista ao New Yorker que o briefing era literalmente abraçar “a aleatoriedade que vem de pessoas”. A campanha viralizou.
Granola, ferramenta de IA para reuniões corporativas, fez o mesmo gesto na direção contrária da sua categoria. Enquanto OpenAI e Anthropic adotam identidades visuais que parecem logos de empreiteira de defesa, a Granola escolheu uma espiral verde irregular, “janky de propósito”, segundo Max Ottignon, cofundador da Ragged Edge, agência por trás do rebrand. A tese era sutil e precisa. Numa categoria onde a estética padrão é precisão clínica, parecer um pouco bagunçado vira marca, vira humano, vira não-IA.
Christine Tyler Hill, designer em Burlington, Vermont, virou guarda escolar de bairro pra ganhar vinte dólares por hora e poder olhar para o entorno em vez de para uma tela. Começou a fazer quadrinhos sobre o que via, depois transformou em zine impresso mensal, The Cloud Report.
Em janeiro deste ano, depois de um vídeo viral no TikTok, mil assinantes pagantes apareceram em vinte e quatro horas. Hoje são mais de três mil, alguns no exterior. Hill resume com precisão o que está em jogo: “estou tentando fazer uma coisa que pareça mesmo ter sido feita por uma pessoa”.
Esse “parecer ter sido feito por uma pessoa” é o ponto.
A imperfeição, na história da arte, sempre foi vocabulário disputadíssimo. Basquiat usava letra trêmula como assinatura social. Rose Wylie pinta como se nunca tivesse aprendido a pintar, e isso é exatamente o argumento dela.
O sloppy (que podemos traduzir aqui como “desleixo”) é uma posição política, quase. Mas a função do sloppy varia conforme o que está saturando o ambiente Nos anos 1980, o sloppy reagia ao mercado de arte que pedia objetos pasteurizados para sala de estar de banqueiro.
Nos anos 2000, o lo-fi reagia à fotografia de stock corporativo, aquela coisa de equipe sorrindo em sala de reunião com gráfico de barras ao fundo. Agora, ele reage a outra coisa. Reage a um excesso de competência sintética que tornou a competência visual irrelevante como diferencial.
O que muda não é a estética. É o que ela sinaliza. Já rastreei esse mecanismo por outro ângulo, ao analisar o conceito de aura no contexto da autoria digital. O padrão é recorrente: quando uma qualidade se torna replicável, o valor migra para outra camada.
Polimento, hoje, sinaliza criação barata. Não no sentido de qualidade, mas no sentido de custo de produção. Se sua peça parece impecável, é provável que tenha sido cuspida em segundos por um modelo. E esse “provável” basta para esvaziar o gesto. O cérebro do espectador faz a conta inconsciente: muito bem feito, pouco esforço, pouca decisão, pouco a respeitar.
Já a fricção sinaliza outra coisa. Tempo investido. Material manipulado. Risco assumido. Alguém que poderia ter clicado em “gerar” e escolheu não fazer isso.
Quando a Apple, em vez de manter o segredo de produção que cultivou por décadas, libera um vídeo mostrando os bastidores de uma campanha do MacBook Neo, com gente construindo props e filmando mãos reais, isso não é transparência por modismo. É movimento estratégico calculado.
A Apple precisa convencer um espectador cético de que aquela peça foi feita por humanos. Que tem custo. Que tem mão. Caso contrário, o público assume IA por padrão e a peça deixa de comunicar. Tor Myhren, vice-presidente de comunicações de marketing da Apple, descreveu o filme em torno dos métodos “tactile and handmade” como ênfase deliberada na “criatividade humana”.
A linguagem corporativa da Apple raramente se compromete com palavras dessa ordem; quando se compromete, é porque o terreno mudou.
A fricção virou prova.
Aqui o argumento faz uma curva incômoda, e é nessa curva que a maioria das análises sobre o tema escorrega.
Se “imperfeição igual a humano” é a equação que está se firmando, a IA aprende a equação. E aprende rápido.
Já existem prompts virais para forçar o ChatGPT a gerar imagens “no estilo mais desajeitado, rabiscado e patético possível”, com cara de MS Paint, com pixels grandes, com erro de proporção.
O resultado tem traço infantil, brushstroke desigual, paleta limitada. Parece falha. Parece mão. Parece humano. Não é. Olhando de perto, os tais rabiscos saem com largura de pincel idêntica e composição centralizada, denúncias da inércia estética dos modelos.
E isso muda a natureza do problema. Antes, a estratégia era simples. Fuja do polido, abrace o erro, ganhe diferenciação. Agora a estratégia precisa ser mais sutil, porque o erro também virou preset. Se a sua marca decidiu ir de lo-fi e a IA pode replicar lo-fi com um clique, você ganhou apenas alguns meses de vantagem competitiva estética.
O que sobra, então, é o processo. Estilo virou parte gerável da equação.
Christine Tyler Hill não vende rabisco. Ela vende uma cidade pequena, um bairro específico, crianças que ela conhece pelo nome, um inverno em Vermont, uma mulher que abriu mão de design corporativo para virar guarda de trânsito. O zine é o produto, o estilo é o sinal, mas o que sustenta tudo é uma vida concreta sendo vivida fora da tela. Isso a IA não terceiriza.
A campanha da Guess funciona porque tem Richard Turley assinando, com vinte anos de Bloomberg nas costas, com decisões editoriais reais por trás de cada borrão. O selo de risco está no histórico de quem fez, não no acabamento.
Granola pode ser copiada visualmente em uma tarde. O que não pode ser copiado é a posição estratégica de uma empresa de IA escolhendo, de propósito, parecer menos otimizada que seus concorrentes para se diferenciar. Essa decisão exige uma leitura cultural específica, uma aposta calibrada, uma coragem de marca. A decisão é o que carrega valor. O resultado visual dela é só o efeito colateral.
Existe uma frase circulando nesse debate que vale a pena reformular sem virar slogan. O premium contemporâneo não é alta resolução, é alta fricção. A versão honesta dessa ideia é mais áspera. O premium contemporâneo é qualquer coisa que ainda exija decisão humana visível. E “visível” é a parte difícil.
Visível como? Não basta mostrar o bastidor, porque bastidor também vira gênero, vira fórmula, vira “behind the scenes” performático. A Apple já entendeu isso, mas qualquer marca média que tente reproduzir o movimento vai parecer cosplay de autenticidade.
Visível, no caso, significa três coisas concretas.
A primeira é restrição. Materiais limitados, ferramentas específicas, paletas estreitas, prazos longos. Quanto mais a peça parece ter sido feita dentro de uma restrição, mais ela se distancia do output infinito de um modelo. Restrição é prova de processo.
A segunda é continuidade. Uma peça única pode ser IA. Uma série coerente que evolui ao longo de meses, com pequenas variações que só fariam sentido para alguém que está vivendo a coisa, é mais difícil de simular. O zine mensal de Hill funciona porque tem cinco edições em sequência, com piadas internas, com referências a edições anteriores, com bairro reconhecível. Continuidade é prova de tempo.
A terceira é responsabilidade. Quem assina, com nome, posição e custo de errar publicamente. Modelos não são processados por má decisão estética. Designers humanos são. Quando uma campanha como a da Guess vai ao ar e divide opinião, alguém precisa responder pela escolha. Esse alguém tem reputação em jogo. A reputação é o que a IA não consegue penhorar.
Pra quem produz comunicação, o cenário é menos romântico do que parece. Não basta resolver “vamos ser mais lo-fi”, porque o lo-fi também já é gerável. A questão real é estrutural.
Se você é uma marca, isso significa repensar onde você investe. Acabamento de pixel, render, layout impecável, tudo isso virou linha de base. Investir mais nessas frentes é investir num diferencial que não existe mais.
O que ainda escala atenção é o que ainda exige humano de verdade. Editoria. Ponto de vista. Posicionamento cultural. Capacidade de fazer escolhas estranhas que um modelo não faria. Comprometimento com narrativas longas que precisam ser sustentadas por gente real.
Se você é freelancer ou estúdio, o briefing precisa mudar. “Faz uma identidade moderna e premium” passa a ser um pedido inviável, porque a referência de moderno e premium é o output médio de IA. O que vale é “faz uma identidade que carregue minhas decisões editoriais específicas”, uma conversa muito mais difícil, muito mais lenta, e muito mais cara. É também a única que não compete com prompt.
Se você é audiência, vale começar a fazer uma pergunta nova diante do que consome. Não “o que aqui foi feito”, porque feito foi todo mundo, todo mundo é feito. A pergunta útil é: o que aqui foi decidido. Decidido é diferente. Decidir custa.
A história da arte é cheia de momentos em que a tecnologia barateou um gesto e forçou os humanos a reposicionar o valor noutro lugar. A fotografia barateou o retrato e empurrou a pintura para a abstração.
O áudio digital barateou a gravação e empurrou a música ao vivo para a economia da experiência. A IA está barateando o acabamento visual e empurrando o trabalho criativo para uma economia da decisão.
A boa notícia, se houver alguma, é que decisão é uma matéria-prima razoavelmente abundante em humanos. Todo mundo decide o tempo todo. A má notícia é que a maior parte da indústria criativa passou os últimos vinte anos convencendo o mercado de que o seu valor estava no acabamento, no polido, no “isso aqui não fica perfeito sem a gente”. E agora fica perfeito sem a gente.
O que vai sobrar para quem trabalha com isso é a parte que sempre foi a mais difícil de explicar para o cliente, o que analisei com mais detalhe ao falar sobre o fim da era do criativo rockstar. Ponto de vista. Leitura cultural. Coragem editorial. Paciência. Restrição. Responsabilidade pelo que escolheu. Foi sempre o que valia. Só que dava para esconder atrás do bom acabamento. Não dá mais.
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