The Circle

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Curti muito fazer o último FalaFreela de 2013 no formato “releitura”, ou seja, em um saudável confronto das listas de leituras minhas, de Cristiano Santos e Carolina Vigna, co-editores no projeto Carreirasolo.org. Tanto que resolvi estender a mania ao longo do ano, criando uma pequena análise, ou simples relatório, a cada obra concluída.

E, como acabei de encerrar o retiro anual na praia no qual, depois de uns dois dias de descompressão, você parece atingir um tal nível de relaxamento que tudo soa mais simples, claro e positivo, já me adiantei em ligar o notebook antes de desfazer as malas e arrumar, nestas mal acomodadas frases, minhas impressões sobre o primeiro livro do ano.

Ah, antes um adendo: embora tenha defendido no mesmo podcast citado acima a soberania do eBook e seus leitores de tinta eletrônica, abro espaço para me contradizer sem qualquer vergonha: férias na praia demandam livros de papel.

Não sei porque, mas acredito que seja alguma lembrança de infância, em ter encontrado livros em casas que visitávamos, esperando anos e anos para serem lidos. era como se existisse uma biblioteca secreta, compartilhada entre veranistas, sabe? Isso, ou então a portabilidade ou a necessidade de se ver livre dos vícios urbanos nestas semanas de vento fresco e tempo lento. Fim do adendo.

The Circle, Dave Eggers
Após a leitura de “The Circle”, posso apenas afirmar que sigo em busca da obra literária que ainda definirá a nossa época, o futuro do presente da segunda década do século XXI.

Isso porque as desventuras de Mae Holland no espaço de tempo de poucos meses entre sua saída de uma chata e burocrática empresa estatal americana e a chegada, ascensão e clímax nos domínios da maior empresa digital do mundo, não me convenceram.

O antes (resenha em grandes sites do momento) e o durante (o desenrolar da trama em si) até agradaram, mas o resultado final, meio amargo e inconclusivo, me deixou com a nítida sensação de estar lendo, no final das contas, mais uma etapa da tão temida “completation”, que na narrativa simbolizaria o domínio completo do mundo pelo monopólio dos “Three Wise Men”. Seria o livro apenas um prenúncio de sua própria profecia?

Mas, não se deixe levar, pretenso leitor, por este início meio detrator. O livro de Eggers tem lá seus acertos e encantos.

Sua primeira parte (Livro I) é marcada pela morte da autenticidade e rebeldia de Mae, que mesmo sendo contratada por sua amiga de faculdade para integrar a maior empresa do mundo, mantinha uma rotina off-line interessante, com passeios na natureza e um tom “blasé” frente ao frenético mundo dos “circlers”, que exigem retribuição social e digital para cada pedido de amizade ou convite para evento.

Mae, no começo do livro, é como o ser humano comum (naquilo que se consideraria comum em um mundo que se PERMITE optar não integrar as redes sociais, por exemplo). Só que isso incomoda muita gente, certo?

Como um Dante dos tempos modernos, contudo, Mae desce pouco a pouco aos círculos de um inferno particular, marcado curiosamente pela inclusão de mais e mais monitores em sua mesa. Primeiro dois, depois três. E, à medida que vai adquirindo novas funções, quatro, cinco, seis…nove!

Nove. Isso me chamou atenção. Teria Eggers feito uma transposição superficial, ainda que curiosa, de uma das obras mais famosas e monumentais do mundo? De repente, não. Apenas exagero de minha parte, certo?

E por falar em exagero, é no Livro II que o caldo entorna pois, no afã de manter este mesmo clima de rebeldia, Mae é pega pelas câmeras oniscientes da empresa cometendo um ato ilícito, ainda que inocente. Sua punição vem de forma curiosa e a pune com sucesso.

Na verdade, o grande ponto do livro é esse: a maior punição de Mae foi, justamente, ter feito um sucesso absurdo e elevado a um expoente estratosférico o mesmo comportamento que ela, no início do livro, criticava. Não disse que “The Circle” guarda boas surpresas?

Essa é uma delas e gostaria de chamar atenção e reforçar o ponto. Quando comecei a escrever este artigo, pensei em centralizá-lo naquilo que mais me incomodou: a falta de uma trama clássica. Daquelas com “cliff-hangers” e “turning points” que deixam você de queixo caído. Mas, ao me deparar com este conceito, notei que ele é ainda mais importante.

O sucesso é a grande punição dos rebeldes em um mundo de exposição extrema!
Esta morte figurada de Mae é um ponto interessante e com ele gostaria de encerrar esta rápida análise do livro. Neste início de 2014, que promete ser o ano no qual as liberdades e privacidades de modo geral e irrestrito estarão no topo de diversas discussões ao redor do mundo, “The Circle” acerta em flertar com os temas da moda, mostrando como a Distopia final pode ser, afinal, o futuro que estamos construindo.

Drones (que aparecem no livro em uma das cenas mais estranhas de toda a obra), NSA, roubo de identidade, regimes de governo, crime e punição nos são apresentados, enfim, como produtos gratuitos de uma imensa e voraz empresa que busca se completar, para, em vão, tentar completar a humanidade que diz representar.

Os personagens são rasos, a trama, com disse, não se sustenta e a voracidade por construir frases seminais (“Secrets are lies”; “Sharing is caring”; “Privacy is theft”.) transformou o livro em uma espécie de relátório de visitas à Startups Californianas (Small Empires?) quando ele poderia trazer a luz para questões mais aprofundadas.

Sim, indico a leitura. Com um pouco de esforço “The Circle” pode se acomodar na mesma prateleira que você guardar “1984” e “Admirável Mundo Novo”. Desde que você entenda que, com boa vontade, os irmãos pequenos podem compartilhar o mesmo quarto do que os maiores.

Não deixe este post morrer. Eu neste momento devo estar lendo outro livro mas, se você quiser deixar sua sugestão de leitura nos comentários, eu prometo avaliar e, quem sabe, ler também!

Sobre o autor

Mauro Amaral

Meu principal foco de atuação é a criação de projetos de conteúdo interessantes, divertidos e leves para marcas, organizações e produtos.

Em função desta opção, transito bem entre jornalismo, publicidade e entretenimento, pesquisando continuamente e filtrando ativamente as tendências do momento para aplicá-las no dia a dia dos meus clientes.

Construo, mantenho e estimulo equipes criativas há 10 anos; com especial predileção por identificar novos talentos e trabalhar potenciais multidisciplinares.

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