O que o caso da Cambridge Analytica nos ensina sobre o futuro da divulgação dos seus serviços no Facebook

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O uso de dados de 50 milhões de perfis pode ter um efeito colateral positivo: o seu amadurecimento enquanto gestor de sua marca pessoal

A essa altura você já deve ter sido impactado pelo caso do vazamento de dados pessoais dos usuários do Facebook provocado pelo mau uso destas informações pela empresa de marketing político Cambridge Analytica.

A história revelada na entrevista de Christopher Wylie ao The Guardian mexeu com as estruturas da maior rede social do mundo, ao ponto de seu fundador, Mark Zuckerberg se manifestar publicamentena última quarta-feira (21/03), as ações da empresa caírem, Elon Musk engrossar a hashtag #DeleteFacebook (um movimento que já amealhou gente de peso como Brian Acton, fundador do WhatsApp) e tudo o mais.

Claro que um acontecimento dessas proporções, de alguma forma, mexe com o mercado de quem trabalha com conteúdo, marketing, desenvolvimento, segurança da informação e diversas outras atividades. Mas, mais do que isso, mexe com a forma como você, nosso leitor, divulga seus serviços.

Você, pequeno designer freelancer que investe seus poucos dólares para impulsionar o portfólio. Você, desenvolvedor, que cria um app bacana e quer mais assinantes. Você, criador de conteúdo que sonha com mais ouvintes para o seu canal. Todos vocês — nós — , veremos mudar a forma como impactamos as nossas audiências.

Em uma visão mais ampla de toda a questão, ainda que a situação esteja se desenrolando, tenho cá uma intuição de que esse golpe vai além da confiança no Facebook, vai direto no coração do modelo de negócio das plataformas atuais.

Aí, meus amigxs, estamos falando de, talvez, uma futura falência do conceito das redes sociais em si (essas que trocam dados de acesso estatístico por dólares de seus anunciantes). A falência das plataformas. Eu, daqui da minha irrisória influência, até que tenho alguma esperança de que isso pode ser bom, ao final das contas.

É sobre isso que este artigo trata. Vou alertar você sobre alguns pontos de atenção na divulgação de seus serviços e, ao final, discorrer um pouco sobre alternativas caso a falência das plataformas atuais ocorra em sua totalidade ou parcialmente.

Com qual personagem do Harry Potter você se parece?

Um resumo do caso da Cambridge Analytica envolve um acadêmico, um desenvolvedor, uma agência de marketing de pesquisa, Trump e o Brexit. Tá bom, pra você?

Comecemos pelo acadêmico: Aleksandr Kogan. Ele desenvolveu em 2007 um teste de personalidade e, com ele, conseguiu minerar os dados pessoais de cerca de 300 mil usuários do Facebook e de seus amigos. Isso gerou uma quantidade de dados absurda: 50 milhões de perfis.

Aí, entra em cena o CEO da Cambridge Analytica, Alexander Nix. Ele teve acesso a estes dados e, malandramente, descumpriu os termos da plataforma, guardando e mais tarde comercializando os dados para fins de seus planejamentos estratégicos de clientes ao redor do Globo.

Com acesso garantido a diferentes “clusters” de perfis e comportamentos, os estrategistas de campanha de Trump e da campanha de saída do Reino Unido do Mercado Comum Europeu, aquilo que a mídia chama de BREXIT, deitaram e rolaram.

Ou seja, fizeram rodar a máquina de criação de bolhas e reforço positivo, moldando centenas de campanhas específicas para públicos específicos de forma a reiterar os seus objetivos. Vale dizer, ambos conquistados: Trump é agora o 45º presidente eleito dos EUA e a terra da rainha não mais trabalha na zona do Euro.

Toda essa trama está longe de acabar e o resumo acima é uma compilação superficial das primeiras duas semanas do caso. Se você quiser continuar acompanhando, indico esta página do The Guardian, que funciona como HUB dos acontecimentos em tempo real.

Descendo da estratosfera dos negócios bilionários e flanando na pouca altura da vida das pessoas comuns, fica a questão: como esse movimento vai impactar aqueles que necessitam do Facebook para divulgar os seus serviços?

A confiança é como uma taça de cristal

Sabe essa frase de vó, tão comum para classificar relacionamentos amorosos que escorregam na falta de idoneidade de uma das partes? Pois é. Na relação entre o seu público e o Facebook, a confiança também é uma taça de cristal. A diferença é que, ao longo dos anos, fomos permitindo, constantes rachaduras. Até que olhamos para a taça e não entendemos como chegamos até ali.

Embora algumas fontes no mercado nacional apontam já ter conseguido medir uma taxa de “desengajamento” no Facebook — o que eu acho tremendamente prematuro e quase irresponsável dizer — , acredito que o impacto será no médio prazo. Mas, desde já, podemos ficar atentos a boas práticas, na hora de divulgar os serviços e prospectar novos clientes.

Pensando no valor percebido de sua marca pessoal após o caso Cambridge Analytica

Já que estamos todos imersos em uma crise de confiança desta plataforma em específico, uma das melhores ajudas que podemos ter, ou até mesmo nos dar, é praticar o velho bom senso.

Neste sentido, pensando sempre que você está a todo momento criando sua marca pessoal, não divulgue conteúdos de fonte duvidosa. Não seja você essa pessoa que espalha notícias não checadas, de fontes com vieses suspeitos.

E digo isso não exatamente porque quero ajudar você a ser uma pessoa melhor (até quero, mas não é por isso). É porque isso vai reforçar o tipo de “bolha” que você está construindo, captou? Quanto mais você engrossar o caldo de vozes superficiais, mais superficial o seu alcance e relevância serão.

Portanto, use sempre a metáfora da praça pública: você subiria em um banco de praça para gritar alguma coisa que não tivesse certeza? Pois é.

Repense as suas estratégias de coleta de dados

Mark Zuckerberg, o CEO do Facebook, afirmou em seu post de retratação que o acesso ilimitado do Graph API já foi revisto em 2014. Acreditando você ou não, o fato é que até esta data, desenvolvedores que tiveram acesso a estes dados, podem tê-los utilizado em diversas outras demandas.

Note que, para o público comum, isso pode representar uma mudança radical na forma como interagem com qualquer pedido de dados. Vale lembrar que a imensa quantidade de detalhes fornecida ao você clicar em um “Logar com Facebook”, sequer é percebida pelo usuário.

Mas, depois dos eventos do Cambridge Analytica, um formulário de contato no qual você solicita mais do que e-mail e nome, pode ser simplesmente deixado de lado.

Ou seja, para além do detalhamento técnico o COMPORTAMENTO frente a um pedido de fornecimento de dados de forma transparente e anunciada, pode ser alterado. “Quero minha privacidade de volta”, para resumir em uma frase o sentimento que pode nascer daí.

Parece-me ser uma boa estratégia, então, ser o mais comedido possível na prática de coleta de dados, mesmo que seja para enviar uma newsletter. Assim como insistentes lembretes sobre esta ou aquela ação, evento, webinar ; ou seja, essa prática chatíssima de players do mercado de “Marketing de Conteúdo”, de nos cansar com e-mails sequenciais, precisará ser revista.

A situação é ainda mais presente no caso de apps que REALMENTE, solicitam acesso ao Grapho Social dos usuários. Se você, desenvolvedor amigo, tem em seu portfólio apps ou projetos que trabalhem nessa linha, acredito que a primeira coisa a ser feita seria gerar conteúdo explicando como você faz isso.

E, por fim, repense a sua presença nas plataformas

Este, para mim, é o grande ensinamento desta crise atual. Tudo bem chamar de crise? Bilhões perdidos em desvalorização configuram crise, certo? Pois bem. O grande ensinamento desta crise atual é que, muito provavelmente, estaremos assistindo muito em breve uma reavaliação do modelo de plataforma atual.

Exagerando um pouco poderemos até mesmo estar assistindo o fim de algumas delas, por maiores que sejam. O modelo no qual dados de acesso e perfis sociográficos são empacotados e trocados por eyeballs de anunciantes, tenderá a ser revisto? Acho que muito provavelmente sim.

Regulações americanas e globais podem surgir e, então, modificar a forma como o acesso é viabilizado? Faça essa pergunta você mesmo: quantas vezes você reclamou que o Netflix subiu de preço, por exemplo Chutaria aqui que quase nenhuma, uma vez que você topa pagar pelo serviço que já se entranhou nos meandros da cultura pop. Acredite, faltará pouco para você achar comum pagar alguns dólares para que o seu Facebook seja uma experiência blindada de anunciantes ou abusos na coleta de dados.

Veja bem. Não se trata de pregar a saída das plataformas em que você atua para divulgar os serviços, mas, sim, de repensar o carinho e atenção que você tem dado à sua plataforma proprietária, seja ela uma linha de e-books técnicos, treinamentos online e o blog da sua marca.

Em um hub de conteúdo sobre o qual você tem mais controle, você gera mais confiança. Ao não terceirizar essa mediação entre dados e acesso, você inspira mais confiança também.

Continue a impulsionar os seus posts. A criar suas stories. A buscar dividendos de influência em seu nicho. Mas, devagar e sempre, invista na consolidação ou retomada de sua plataforma proprietária. O máximo que você pode ganhar, é a confiança de seu cliente de volta.

 

Sobre o autor

Mauro Amaral

Meu principal foco de atuação é a criação de projetos de conteúdo interessantes, divertidos e leves para marcas, organizações e produtos.

Em função desta opção, transito bem entre jornalismo, publicidade e entretenimento, pesquisando continuamente e filtrando ativamente as tendências do momento para aplicá-las no dia a dia dos meus clientes.

Construo, mantenho e estimulo equipes criativas há 10 anos; com especial predileção por identificar novos talentos e trabalhar potenciais multidisciplinares.

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