Thomas de Wesselow e o sinal do homem no sudário

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Para alguns é o Santo Graal, para outros, os três tripulantes de Roswell ou ainda a real causa do afundamento do Titanic. Você pode fazer esse exercício agora: não existe pessoa que pisou, pisa ou pisará nesse planeta que não tenha uma busca que ressoa calada em sua consciência.

No meu caso é o estudo do Jesus histórico. E antes que levantemos discussões inúteis, isso não tem nada a ver com religião. Tem a ver com biografia.

Os primeiros contatos com as percepções e teorias que envolvem este estudo, devo ao meu Pai, que me apresentou — primeiro verbalmente e depois com a literatura da época — as questões relativas aos Manuscritos do Mar Morto.

Ler e entender que uma seita de ermitões chamada Essênios poderia ter criado o mito de Jesus como um senhor da retidão, já coloca você para pensar. Essa dualidade da existência física e apenas terrena e uma existência mítica e, portanto, irreal (não sobrenatural, esteja bem dito); guiou as leituras que busquei a partir de então.

No entanto, mesmo estando sempre atento, não consegui escapar de algumas obras oportunistas. Podemos citar a Operação Cavalo de Troia, a literatura madalenista de Kathleen Mcgowan e obras até mesmo mais sérias, como o já famoso-esquecido-lembrado-e-esquecido-novamente, O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, de 1982.

A estrada já se figura longa e nem sempre foi criteriosa em suas escolhas e teorizações, como você pode perceber. Terminei a mais recente leitura há 15 dias e se chama “O Sinal” (2012, Thomas de Wesselow, Editora Paralela). E temi pela derrapada pop como nunca antes.

(Alerta de Spoiler: não tem como não falar do livro sem abordar a sua teoria central. Se você não curte este tipo de revelação, é melhor parar de ler por aqui.)

Pego de surpresa por uma exposição merchandisign
Veja bem: temi por ser pego por subliteratura mesmo antes de comprar o livro. Isso porque passeava despreocupadamente por um shopping carioca quando vi estampado na entrada de um centro de exposições um banner curioso: “Quem é o homem do sudário?”.

Guiado que sou pela busca do Jesus histórico pensei cá comigo: será que vão testar novamente o carbono 14 do manto? E entrei pelos corredores que recontavam a mesma história de sempre, com direito à um mapinha refazendo a peregrinação da mortalha que “teria coberto um judeu crucificado no século I” pela Europa medieval. A última sala guardava ainda uma cópia holográfica do Santo Sudário (bem interessante até) e um modelo de gesso mostrando como seria a posição do corpo para gerar aquele efeito.

O Vaticano considera, até hoje, o Santo Sudário apenas como um ícone religioso.

Ok, só mais uma exposição. Lembro de termos saído eu, minha esposa e as crianças pensando no título da mostra. Para nós, “O homem do sudário” nos deixou com uma sensação de que a exposição era isenta, uma vez que levantada questionamentos sobre o famoso ícone religioso. E só.

Mas nem bem chegamos em casa, fomos brindados com uma reportagem na TV. E, dias depois, resenhas nos cadernos de literatura dos principais jornais. E aí, tudo se revelou: era só uma campanha muito bem arquitetada para lançar o livro.

Era véspera de Páscoa e me lembro que isso me deixou com uma amarga sensação de “Caramba, fui pego como o mais simplório dos públicos…droga!!”. Mas, claro, comprei o livro e comecei a lê-lo.

A teoria, a estrutura e porque não curti
O autor é historiador de arte e baseou a pesquisa prévia para a criação do livro na história do povo Judeu e de sua estranha relação com o mundo das imagens. Através dessa análise ele busca justificar a teoria central do livro que, de todo, é curiosa: segundo o autor a exibição do Sudário para um pequeno grupo de iniciados foi interpretado como um sinal de ressurreição e todos os evangelhos e ensinamentos posteriores foram reinterpretações desse primeiro momento. Não houve corpo físico ressuscitado e sim a exibição do manto como prova de tal feito.

O trabalho e testes da equipe multidisciplinar que, em 1978, teve acesso ao sudário é questionado.

A disseminação do cristianismo se deve, portanto, a existência do Sudário. Sim, para o autor não existem provas que atestem que o pano seria falso. Pelo contrário, tudo o levantado até agora só serve para corroborar sua autenticidade e, por consequência sua teoria.

E é aí que reside a falha teórica dessa obra, pelo menos se quisermos levá-la minimamente a sério. O livro parece ter sido construído através do antigo mecanismo da profecia auto-realizável, ou seja, de dentro para fora. No caso, o “dentro” é a teoria central que, segundo o próprio autor, veio como de um estalo quando estava sentado no jardim de sua casa.

Aliás, o ponto em que é narrada esta descoberta, por seu tom, ritmo e estrutura parece ter sido escrito primeiro. Todo o livro, como em uma cebola gigante, parecem ser camadas e mais camadas explicativas necessárias para justificar esse rápido devaneio.

O que me prendeu à obra foi o fato do autor fazer isso muito bem. Ao comparar as escrituras, crônicas medievais, trazer exemplos de efeitos visuais e químicos possíveis para a geração da imagem fantasmagórica exibida no pano e até mesmo mostrar como diversos outros ícones ao longo da história antiga foram, na verdade, exibições do mesmo Santo Sudário (ora dobrado, ora amarrado à cabeça de antigos ministros religiosos); a narrativa vai tecendo uma interessante distopia histórica.

Nela, Saulo não foi convertido por uma aparição sobrenatural. Foi sim pego em seus devaneios filosóficos ao ver a figura por inteiro, no pano de linho, um anjo duplo que funcionaria como um intermediário entre o mundo de Deus e o terreno. Um efeito físico interpretado pela estreiteza do horizonte técnico e científico da época. É ou não é interessante?

Mas ao final, fiquei com a mesma sensação do tal passeio pelo shopping: você é pego por uma promessa duvidosa, faz o percurso e sai com a sensação de que tudo não passou de mais um “Código Da Vinci”.

Leia e tire suas conclusões. Se já tiver lido, comente logo abaixo. Só não tente levar como teoria definitiva só mais um possível roteiro de um filme hollywoodiano.

Sobre o autor

Mauro Amaral

Meu principal foco de atuação é a criação de projetos de conteúdo interessantes, divertidos e leves para marcas, organizações e produtos.

Em função desta opção, transito bem entre jornalismo, publicidade e entretenimento, pesquisando continuamente e filtrando ativamente as tendências do momento para aplicá-las no dia a dia dos meus clientes.

Construo, mantenho e estimulo equipes criativas há 10 anos; com especial predileção por identificar novos talentos e trabalhar potenciais multidisciplinares.

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