Penso#6 – Sobre soberanos, disciplinadores e controladores

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Encontro-me absorto em uma aula, cercado de conceitos densos demais. Rabisco como quem não quer nada 3 nomes de jogos que acompanharam não só a mim, mas várias gerações nos últimos 30 anos. E noto a sua incrível semelhança com 3 modelos de sociedades sugeridas por Foucault e Deleuze.

Noto por que a metáfora me chamou tanto a atenção. Está tudo lá, em um jogo que vem animando cortes, sultanatos, tabernas, casas, praças, campeonatos e até o data center da IBM há milênios. 

Acredito que nós, humanos, seres dotados dessa habilidade de criar um mundo externo à nossa vivência física, através de metáforas e cosmogonias várias, talvez tenhamos manifestado e encenado outros movimentos de grandes fluxos sociais ao longo da história a partir da evolução de nossos divertimentos. De nossos jogos. E que deixamos pistas sobre isso.

E, no Penso#6, explico como isso pode ajudar você a se colocar melhor no mundo profissional.


Para além da experiência auditiva


Ficha técnica

  • Penso#6, gravado em 14/08/2019
  • Roteiro, edição e mixagem: @mauroamaral
  • Áudio extra 1: retirado do vídeo “Michel Foucault por Oswaldo Giacoia Junior”, do canal Quem Somos Nós
  • Áudio extra 2: retirado do vídeo “DELEUZE: FILOSOFIA DA DIFERENÇA | FRANKLIN LEOPOLDO E SILVA”, do canal Casa do Saber
  • Áudio extra 3: retirado do vídeo “Deleuze e as sociedades disciplinar e de controle”

Todos os vídeos estão disponíveis no post original do programa em mauroamaral.com


Transcrição do episódio

Visito um campo de batalha conhecido. Um terreno geograficamente necessário, limitado por suas fronteiras retilíneas e duplamente coloridas. 

Nele, soldados se debatem em constantes movimentos, sendo de quando em vez, supliciados em público -, todos morrendo para proteger o Rei. 

Na hora do fim, olham para seus bispos, em busca de perdão divino, a moral que mais respeitam. Tombam. Saem de cena.

Esse poder negativo, exercido por um soberano, e que decide quem vai viver ou morrer, segue onipresente até a hora em que o jogo termina. Xeque Mate, que não por acaso quer dizer, o rei está morto.

Projeto um imenso o tabuleiro de xadrez no espaço vazio duas cadeiras à minha frente. E relembro que ele é a representação perfeita da Sociedade de Soberania, como proposta por …  

Noto porque a metáfora me chamou tanto a atenção. Está tudo lá, em um jogo que vem animando cortes, sultanatos, tabernas, casas, praças, campeonatos e até o data center da IBM há milênios. 

Acredito que nós, humanos, seres dotados dessa habilidade de criar um mundo externo à nossa vivência física, através de metáforas e cosmogonias várias (Yuval Harari, Sapiens, 2016), talvez tenhamos manifestado e encenado outros movimentos de grandes fluxos sociais ao longo da história a partir da evolução de nossos divertimentos. De nossos jogos. E que deixamos pistas sobre isso.

Divago sobre isso alguns minutos enquanto rabisco…

Estou absorto em meio a tantas explicações que ouço ao meu redor. Anoto no canto do caderno, em meio a frases mais sérias os nomes de 2 jogos de tabuleiro e de um jogo casual que roda, normalmente, em smartphones.

Faço a comparação ali mesmo, rapidamente, e o resultado é uma animação interior diferente. É como se o entendimento particular de tantos conceitos com os quais estou me deparando nos últimos meses, fosse um peixe que se joga para a foca que fez o truque corretamente. 

Sim, faço uma comparação pueril. Isso me reconforta. Eu sou a foca.

Resolvo me explicar, agora com a voz do tempo presente, lembrando que desde março de 2019 passo alguns dias da semana por si só corrida com um novo grupo de amigos que partilham a mesma jornada, ora sonho, ora devaneio, sempre devir. A preparação para um retorno acadêmico. 

(off: quando digo que o projeto mauroamaral.com começa e termina neste podcast mas não se encerra nele, tem a ver com isso. Aguardem novidades ao longo do processo e, conselho de amigo, ouçam novamente o Penso#3)

Faço força para voltar. Estou lá novamente, olhando para o quadro branco recheado de pilots multicoloridas. É o momento em que tomo conhecimento e intimidade com o conceito de genealogia.

Arrisco explicar: da maneira como consegui alcançar, é como a forma de pensar em que as consequências são apenas aparentes e quase nunca dotadas de uma linearidade. 

É uma subversão interessante e nos propõe elucubrações variadas. De uma hora para outra, me coloco a pensar em como o avião não substituiu o trem como forma mais rápida de viajar. O cinema não foi a evolução da fotografia. Os jogos de mundo massivo não são um aprimoramento do PONG, da década de 70 do século XX.

Os acontecimentos, então, são, antes de tudo, reflexos de fluxos de que se adensam e servem a projetos de poder que gera um saber que abastece um poder. (continuar nesse fluxo)

Um exemplo clássico: a psicanálise não foi inventada tão somente como evolução linear de linhas de pensamento necessárias para entender o homem e suas relações. 

Na verdade, era e é um projeto para domar a sexualidade da burguesia nascente. Por que isso era interessante para os governos e os mercados em época de expansão industrial.

Sinalizo que se alguém da provável audiência é minimamente envolvido com a indústria criativa do século XXI, sente na pele o que eu quero dizer com isso. Inclusive no que se refere ao refreamento dos instintos mais lascivos.

Pois é, caro floco de neve, você não é um gênio da raça que vai mudar o mundo. É mão de obra ultra-qualificada e megabarata. Mas isso é um papo para daqui a pouco. 

Pareço divagar. Olho para o gravador. Alguns minutos se passaram e eu não me expliquei propriamente. 

Hoje, no Penso#6, quero visitar dois espaços mentais, além dessa batalha milenar que abriu o episódio. Um tem pouco mais de cem anos. E o outro, nem 10.  

De forma curiosa – no formato de jogos de tabuleiro – , eles representam 3 das sociedades que nascem dos diferentes movimentos destes fluxos históricos. E nos mostram que esses fluxos se manifestam em diversos acontecimentos ao nosso redor.

Considero esse despertar necessário.

Para seguir, o campo de batalha tem que dar lugar à fábrica. Ou à escola. Ao exército. Ao hospital…não importa.

Isso porque o fluxo de pensamentos, vontades e potências da humanidade, pouco a pouco nos levaria para outra configuração. Um adensamento que o mesmo Foucault chamaria de Sociedades Disciplinares.

Mas que, aqui no sexto episódio do mauroamaral.com, eu vejo se manifestar em um tabuleiro sobre o qual passei boa parte da minha infância 

O  Banco Imobiliário.  

Senão, vejamos

Mais do que uma batalha, temos agora uma série de estruturas às quais vamos nos submeter. A morte é substituída pelo controle dos corpos, a sua domesticação. 

O soldado que morria em um campo de batalha estilizado do primeiro jogo agora é um peão que tem cada etapa de sua vida normalizada. Colocada em regras, em um ritmo…por que não… industrial. 

Um passo de cada vez, em um longo prazo de várias e várias voltas no tabuleiro.

Um peão que precisa contar com a sorte das regras, das cartas de sorte e revés e, durante essa procissão de sucessos vigiados pelo banqueiro que administra a grana da partida, precisa construir fortunas, comprar mais e mais casas, tirar férias e, quando tudo dar errado, ir para a prisão, que o redime. 

Sua quitação aparente, portanto, decidida no jogo de dados.

Dois jogos, duas representações perfeitas de sociedades como analisadas pelo filósofo francês. 

—-

Lembro que convoquei à provável audiência para ouvir falar de três modelos mentais. Já apresentei dois. Qual seria o terceiro, tão atual?

Para apresentá-lo, precisamos revisitar outro autor. Ele continua o trabalho de Foucault, com o qual dialoga fartamente, ao ponto de ter como um de seus últimos textos em vida, um famoso capítulo chamado

Pois bem. Qual seria o jogo para representar a Sociedade de Controle como proposta por Deleuze?

Na verdade, qualquer um que esteja em seu bolso neste exato momento. No seu smartphone. Que você não larga. Que rouba o seu sono..

Isso porque se para os Soberanos, você morria ou vivia de acordo com seus desejos e para os disciplinadores você deveria ser moldado por regras e instituições para que se adequa-se ao bate-estaca industrial, na Sociedade do Controle, o peão é você. Você é o grande jogo.

E, em Candy Crush, por exemplo, você é 100% do tempo estimulado a competir, a incrementar suas habilidades em um processo de aprendizado sem fim.

Você não quita as suas obrigações. Está em moratória ilimitada 100% do tempo, devendo novas pecinhas para que elas se encaixem umas às outras. Você é um Player N1 Endividado. Deve ao jogo. Deve aos amigos com os quais joga junto. Deve, sobretudo, a você mesmo.

Você precisa performar, responder não ao Rei ou ao General, mas ao mercado que se infiltra como um gás por todas a sua alma. Nos seus salários. Na empresa de um homem só.

[Shame on me.]

O cidadão que antes montava um Hotel na Faria Lima ao jogar um seis no dado, agora, derruba uma fila de balinhas roxas no Candy Crush para, logo em seguida, ver nascer mais 3 fileiras multicoloridas. Porque, hoje, você pode tudo.

Em um ambiente em que você pode tudo, quem disse que você não pode querer algo? 

[pausa]

Folheio novamente o caderno daquele dia, revisitando as anotações sobre as 3 sociedades e esse insight da manifestação de seus adensamentos em jogos de tabuleiro tão corriqueiros.

Você pode pensar: existem versões do jogo de xadrez para smartphones, assim como quebra-cabeças coloridos analógicos há muitos séculos.

E, então, eu lembraria a você mais uma vez que não é a tecnologia em si que conta. É o que de fenômenos e disputas sociais aquele divertimento procurar representar como metáfora. Em um momento específico. Para certos grupos. E com quais objetivos.

E, mais do que isso, sinalizo duas coisas importantes.

A primeira – o despertar para o pensar deve ser valorizado nos espaços de hoje. Se a provável audiência não se propor a mudar o seu entorno, pouco mudará. Lembrando sempre que “a minha opinião diz que…”,  não é pensar. 

O cerceamento de pluralidade não é pensar. 

O meu no lugar do nosso não é pensar.

A segunda –  Sim, a sociedade do controle está funcionando e aberta para negócios 24 horas por dia, sete dias por semana. E, ao que tudo indica, parece não haver fuga de seus tentáculos.

Mais ou menos.

Decido falar sobre isso em outro programa.

Jogo os dados, tiro um duplo 6. Desligo o smartphone. Faço um Roque simples. E me sinto o soberano de minha própria disciplina. 

mauroamaral.com é um projeto que buscar refundar o contato direto entre o fluxo da minha consciência e os ouvidos da sua.

Ele não se resume a, mas começa e termina neste podcast, que todas as segundas-feiras levanta questões sobre os nossos nós, adensamentos do estado de coisas atual sobre os quais é impossível não falar sobre. 

Hoje, você ouviu um programa introdutório sobre o nó “Mentoria”, que vai se aprofundar sobre a situação atual do profissional criativo.

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Sobre o autor

Mauro Amaral

Meu principal foco de atuação é a criação de projetos de conteúdo interessantes, divertidos e leves para marcas, organizações e produtos.

Em função desta opção, transito bem entre jornalismo, publicidade e entretenimento, pesquisando continuamente e filtrando ativamente as tendências do momento para aplicá-las no dia a dia dos meus clientes.

Construo, mantenho e estimulo equipes criativas há 10 anos; com especial predileção por identificar novos talentos e trabalhar potenciais multidisciplinares.

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