Penso#25 – Dia Nacional do Podcast 2021: o que estamos comemorando mesmo?

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Hoje é um dia especial para a comunidade de produtores de podcast no país. Dia 21 de outubro é o Dia Nacional do Podcast porque foi em uma data como essa, em 2004, que Danilo Medeiros publicou o primeiro arquivo de áudio encapsulado no protocolo RSS e assim, inaugurou a podosfera brasileira. Seu podcast (a gente só entenderia que se chamava assim logo em seguida), o Digital Minds não existe mais. Mas os podcasts sim.

É o dia em que saudamos pioneiros como Alexandre Ottoni e Deive Pazos, Luciano Pires, Cris Dias, Alex Maron e Carlos Merigo, Jurandir Filho, Eduardo Salles, Lúcio Luis, Christian Gurtner, Paulo de Carvalho, Leo Lopes, René de Paula Jr., Ira Croft, Andrei Fernandes e Rafael Jacaúna… os já saudosos Harald Stricker e Silmar Geremia e tantos, tantos, tantos outros que antes de tudo o que se viu de 2016 em diante acontecesse, estavam por aí gravando, editando e divulgando os seus programas. 

Falarei destes tempos loucos e mais recentes já, já. Por que hoje é também o dia em que no Twitter você vai poder acompanhar duas ou três gerações depois dessas brincando, trocando referências, indicando programas que surgiram agora, outros que juram existir há muito tempo, “nossa, é desde o começo que eles fazem”, sendo o começo 2015. E tudo bem.

Até porque, é dia de celebrar. De olhar o que a turma da AbaPod está pensando para regulamentar e organizar as demandas da comunidade. Dia também de olhar lá no grupo PodcastersBr a quantas andam as dúvidas para tentarmos ajudar.

É dia de, pelo menos para mim, olhar antigos HDs externos e relembrar gravações que remontam a mais de 15 anos. Amizades que já foram, outras que chegaram, projetos que não saíram do powerpoint, outros que sequer chegaram ao segundo episódio e aqueles que mudaram de nome. E ver, também, o quanto mudei.

E é aqui, que este texto e sua versão em áudio mudam de tom

Estou sentado em um curso preparatório para tentar, pela terceira vez, uma vaga em um Mestrado Público. Eu não sabia no momento, mas conseguiria, até com certa folga no quadro geral de vagas. Outra coisa que eu não sabia era qual objeto de estudo, qual tema iria me aprofundar. Sempre tive muitos interesses e, quando se tenta recortar esse mundo de assuntos em um objeto de pesquisa viável, seus problemas começam.

Mas neste dia, nossa função era dizer para a turma que objeto de pesquisa seria esse, pois era uma aula de metodologia de pesquisa e basicamente é sua grande função organizar essa jornada. Eis que como se um headphone transdimensional estivesse nos meus ouvidos, ouço a voz da consciência, sempre amiga, sinalizar: “Encara isso de uma vez e fala daquilo que você mais gosta de fazer desde que começou em 2008”. 

Meu tema será sobre como a figura do produtor de podcast segue criando contato direto no mundo dos algoritmos.

Assim, de primeira. E, sim, acreditava muito nisso ali por 2018 e 2019. Comecei a desenhar meu projeto ao redor da retomada do contato direto intermediada pelos podcasts. De como era possível, a partir do que eu chamo de mitologia da trupe, tecer relacionamentos de contato direto entre produtores e sua audiência porque, afinal, uma vez que você assina o seu podcast você recebe o conteúdo de um para um. No big deal. Tudo certo.

Certo? Mais ou menos, principalmente neste Dia Nacional de Podcast em 2021

Então, comecei a voltar no tempo. Sair definitivamente da bolha da literaturice vazia do mundo dos negócios, que convenhamos sempre evitei por motivos de alergia de pele mesmo, na qual tudo vai dar certo e o mundo será disruptivo, criativo e para todos, e fui em busca da origem do estado de coisas que via acontecer na minha frente e não acreditava que ninguém mais via.

E com isso quero dizer movimentos importantes como a fome do Spotify para o mundo nas narrativas em áudio, suas contratações milionárias e ferramentas incríveis que nos fazem colocar no ar um podcast em 15 minutos. A chegada da Globo no meio, com seu porta-voz mor abrindo vários espaço no Jornal Nacional para explicar-doutrinar o afegão médio sobre o que se tratava podcast e, alguns meses depois, promover um dia de debates sobre o tema, eventos de outros big players acontecendo antes e durante a pandemia e uma lista quase inalcançável de acontecimentos.  

E minha questão passou a ser outra: por que tudo isso está acontecendo agora? Que conjunto de forças é esse capaz de mudar a filosofia de uma determinada prática de circulação de discursos bem na nossa frente e tão rapidamente? Por que foi importante essa escalada tão rápida? E porque topamos entrar nessa? E como todo esse contexto se relacionaria com o Dia Nacional do Podcast?

A resposta é ainda um trabalho em andamento, longe de ser concluído, até por isso transformei no tema de minha dissertação de Mestrado. Mas, para resumir em um único tweet, cabe aqui aquela frase tradicional de séries policiais, quando perguntam para o investigador genial que resolve tudo com um quadro cheio de fotos preto-e-branco espetadas com alfinetes e esses conectados com fios de lã vermelha: “Follow the money”.

E quando fiz isso, conectando alfinetes mentais com acontecimentos recentes, comecei a remontar a trajetória desse capital

Ele já morou dentro de fábricas produzindo sem parar até entupir o mundo de produtos físicos que ninguém comprava. Resultado? Crise nos anos 70 que não houve publicidade que desse jeito. Ah, você não sabia que tem momentos em que ela não dá jeito? Pois é. 

Depois, com alguns ajustes governamentais e nova política de circulação e acumulação de reservas, gerou a internet em sua primeira versão (comparação com Matrix vem na hora, mas vou evitar ir por esse caminho hoje aqui), seu crescimento e bolha estourada. BOOM.

Daí ele foi morar… em quase todas as casas dos EUA. Digo, no mercado de hipotecas mas, de forma virótica e nada saudável. Se você já viu um filme de 2015 chamado Big Short, com o Christian Bailey interpretando o analista financeiro Michael Burry, sabe do que estou relembrando aqui. Michael sacou a jogada – a compra de crédito “podre” e seu empacotamento em novo crédito “não podre”, os chamados Derivativos – e tentou avisar primeiro, lucrar depois e largar tudo ao fim. O resultado: a crise de 2008, claro. Caos. 

É um ponto de virada importante que estou trazendo aqui de forma resumida porque, senão, haja paciência, mas basicamente, foi o momento que esse mesmo Capital Nômade sacou que o petróleo agora era outro.

Eram os dados, baby.

E, começou a focar em uma maneira escalável de sugar, analisar, empacotar e vender a imensa quantidade de dados que o mundo cada vez mais conectado produz. Na verdade, vamos colocar as coisas em ordem aqui: começou a entender que a grande jogada era conectar cada vez mais momentos de nosso dia em fontes sugadoras de dados para assim, aumentar os pontos de contato. Este é, em um tweet novamente, uma definição rasa de capitalismo de plataforma.

Se nossos celulares acompanham nossas movimentações pela cidade, é porque querem dados georreferenciados. Se nossos smartwatches oferecem uma coleção de apps de saúde é porque querem coletar – em larguíssima escala – os dados biométricos de populações inteiras. Se ajudamos a Amazon a identificar captchas de pontes e semáforos quando vamos fazer a verificação de login, é porque queremos treinar inteligências artificiais sobre como pensam e agem e enxergam e amam e dormem e perdem o sono, nós, os humanos plataformizados. 

E é aqui que um fio de lã vermelha sai do termo “Capitalismo de Plataforma” e é esticado até uma foto de vários podcasters felizes, com esse aqui:

O primeiro encontro nacional do podcast aconteceu na ComicConXP em 2016.

Se a lã vermelha se conecta-se a esta foto, você poderia me ver ali no canto esquerdo, camiseta da Nasa, tentando entender como um evento quase de entusiastas lotou com filas com gente do lado de fora. Isso porque…

Sabe outra coisa que curtimos muito fazer? Contar histórias em narrativas orais. Gravá-las, desde que nos habilitamos tecnologicamente a fazê-lo, e disseminá-las de forma exponencial a partir de redes telemáticas. Já imaginou a quantidade de dados que produtores e audiência estão gerando nesse processo?

BUM!

O Spotify já. O grupo de investidores do Spotify já. O grupo que controla o grupo de investidores já.  Respira. Concentra. Recomeça.

Então, neste Dia Nacional do Podcast, queria só fazer esse rápido retrospecto. Comemoramos hoje, na verdade, um tempo antes de todo esse cenário e isso é absolutamente legítimo de ser feito. 

Eu mesmo acordo meio saudoso, com aquela lembrança de mp3 player carregado dos episódios da semana, andando pelo centro do Rio de Janeiro torcendo para ouvir meu nome lido em uma seção de e-mails. 

Mas, quando testemunhamos o crescimento sem precedentes, a quantidade de produtores, programas e audiência, eu tendo a achar que nosso olhar deve ser outro e que, para efeitos do que nos permite esse formato de hoje, em estrutura resumida, daria para condensar em um pensamento final. 

No século XVIII, o inventor húngaro Johann Wolfgang Ritter von Kempelen assombrou as cortes de então ao apresentar um jogador de xadrez autômato capaz de prever movimentos de jogadores reais chamado de “Mechanical Turk”. O que se descobriu logo depois é que na verdade, a engenhosidade fazia fronteira com certa malandragem, tendo Johann escondido um anão na estrutura do equipamento que controlava os movimentos do outrora robô pensante. 

Duzentos anos depois, Jeff Bezos ao escalar o seu serviço de cadastramento e revisão de informações de produtos duplicados em sua imensa plataforma, revisitou esse conceito criando o serviço AMT (ou, Amazon Mechanical Turk) trocando alguns centavos de pagamento por página revisada, trabalho feitos por gazilhões de empregados precarizados ao redor do mundo. 

Esta lógica, que orienta os movimentos do Spotify de 2016 para cá nos propõe então que se o contato direto dá sinais de que fui submetido a uma lógica da grande plataforma, seria correto dizer que estamos, então, comemorando uma nova fase. A qual proponho chamar, de agora em diante de… Dia do Profissional Gerador de Dados sobre conversas em áudio.

Parabéns para todos nós encolhidos em nossos gabinetes de curiosidades.

Sobre o autor

Mauro Amaral

Meu principal foco de atuação é a criação de projetos de conteúdo interessantes, divertidos e leves para marcas, organizações e produtos.

Em função desta opção, transito bem entre jornalismo, publicidade e entretenimento, pesquisando continuamente e filtrando ativamente as tendências do momento para aplicá-las no dia a dia dos meus clientes.

Construo, mantenho e estimulo equipes criativas há 10 anos; com especial predileção por identificar novos talentos e trabalhar potenciais multidisciplinares.

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